Nota Histórico-Artistica
Tal como aconteceu com o primitivo convento de São Francisco de Guimarães, também o de São Domingos foi demolido por ordem de D. Dinis, por se encontrar demasiado próximo das muralhas e de, por isso, prejudicar a defesa da cidade. Por essa altura, o convento contava com poucas décadas de vida, sendo a sua origem apontada por volta de 1271, na sequência do estabelecimento de uma pequena comunidade dominicana, oriunda da casa mendicante do Porto. Infelizmente, nada dessa primeira edificação chegou até hoje.
A reedificação do convento, em local muito próximo ao original, revelou-se bastante demorada. Durante os reinados de D. Dinis e de D. Afonso IV as obras arrastaram-se, sem grandes progressos, e foi necessário esperar pelo final do século XIV para que se desse o verdadeiro impulso construtivo. Por empenho pessoal de D. Lourenço Vicente, arcebispo de Braga e um dos principais nomes da nova ordem dinástica, de Avis, o convento pôde dispor, finalmente, das verbas necessárias, assim como da influência política de alguns nobres que acompanharam o projecto do arcebispo, caso de D. João Afonso de Briteiros, que custeou a construção de uma das naves.
Em termos artísticos, não obstante a sua datação tardia, o convento de São Domingos de Guimarães segue a tipologia mendicante, ensaiada na esmagadora maioria das casas conventuais de dominicanos e franciscanos, desde o século XIII. Três naves, seccionadas em quatro tramos, com transepto ligeiramente saliente e cabeceira tripartida, com grande probabilidade escalonada, definem a planta geral do templo. A iluminação mantém-se relativamente escassa, independentemente da ampla rosácea da fachada principal, graças às altas e estreitas frestas sobre as naves laterais e as grandes massas pétreas, desprovidas de aberturas, que caracterizam o interior. Alguns elementos técnicos, ou decorativos, apontam claramente para a arquitectura do Gótico final, quatrocentista, como "o chanfro das arcadas longitudinais (...) e os capitéis de cestas lisas" (DIAS, 1994, p.133). O produto final, contudo, caracteriza-se por uma grande austeridade, a que a feição cruciforme dos suportes internos, por exemplo, ajuda a reforçar. São Domingos de Guimarães é um dos últimos exemplos góticos de como o modelo tipológico, inaugurado quase dois séculos antes, era ainda o modelo de sucesso e praticamente oficial das ordens mendicantes em Portugal. Mas São Domingos de Guimarães é, igualmente, um dos mais importantes testemunhos de como a tradição construtiva de sabor românico, tão vincada no Entre-Douro-e-Minho, parece ter continuado para lá da (inevitável) substituição deste estilo.
A evolução estilística da arquitectura determinou uma grande campanha barroca neste convento, que privilegiou a alteração de dois dos principais elementos simbólicos do templo: o portal principal e a capela-mor. O portal, custeado por D. Rodrigo de Sousa Alcoforado, passou a estar organizado como um verdadeiro pórtico-retábulo, enquadrado por colunas e por um amplo coroamento cenográfico, que se desenvolve até à parte inferior da rosácea. A capela-mor foi integralmente modificada em 1774, altura em que se construiu um corpo rectangular bastante profundo, profusamente iluminado por amplos janelões e enriquecido com um retábulo-mor e um cadeiral, elemento que veio ocultar o arcossólio gótico onde está o túmulo da fundadora do convento, D. Branca de Vilhena.
O século XIX dotou o antigo convento de novas e inesperadas funcionalidades. Depois de extintas as ordens religiosas, o espaço foi ocupado pelo 18º Regimento de Infantaria e, algumas décadas depois, parte do convento foi cedido à Sociedade Martins Sarmento, que aqui instalou um núcleo do seu museu. Já no século XX procederam-se às principais obras de restauro que, tal como no Convento de São Francisco de Guimarães, privilegiaram a consolidação estrutural, em detrimento das soluções inventivas, que tanto caracterizam a actividade da DGEMN nas suas primeiras décadas.
PAF