Nota Histórico-Artistica
A Irmandade da Misericórdia de Guimarães foi fundada no primeiro decénio do século XVI e estava instalada na capela de São Brás, pertencente aos claustros da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. No final da centúria verificou-se a necessidade de instalar a irmandade num edifício autónomo, e por isso em 1587 foi feito um pedido a Filipe I para que a Misericórdia pudesse comprar algumas casas particulares, por "preço justo", no local escolhido pelos irmãos para edificar a nova igreja. No ano seguinte, a 20 de Maio de 1588, era lançada a primeira pedra da igreja, trabalhando-se nas suas fundações e anexos até 1595. Nesse ano, a 15 de Abril Gonçalo Lopes e Pedro Afonso de Amorim foram contratados para realizarem a obra da capela-mor e oficinas da igreja; a edificação da capela-mor estaria concluída em 1598, mas as obras ficariam paradas durante o ano de 1599 devido a um surto de peste que assolou a vila de Guimarães. Em Outubro de 1603 morria Gonçalo Lopes, e por isso em 1604 a Misericórdia vimaranense fez novo contrato com Pedro Afonso de Amorim e com o seu genro João Lopes de Amorim para a direcção da fábrica de obras. A partir desta data edificaram-se as paredes da igreja, o coro-alto e a fachada retabular. Dois anos depois a igreja seria inaugurada, e em 1607 o desenho inicial da fachada, descrito no contrato celebrado, seria substituído por uma nova traça da autoria de João Lopes de Amorim, depois de o mestre ter argumentado que o original apresentava "defeitos". A partir de 1608 iniciavam-se os trabalhos no interior do templo. Alguns anos depois, em 31 de Maio de 1620 João Lopes de Amorim iniciava a segunda empresa na Misericórdia de Guimarães, assinando o contrato para edificar a Casa do Despacho, contrato que documenta também a participação do mestre na obra do hospital da irmandade. Depois de várias paragens e remodelações, as obras estariam finalmente concluídas em 1640.
A Igreja da Misericórdia de Guimarães obedece a uma estrutura maneirista em que se destacam a verticalidade do edifício, a sua paradigmática fachada-retábulo e um programa decorativo de clara inspiração flamenga. De planta longitudinal composta por nave única e capela-mor rectangulares, a sua fachada principal, "um dos melhores exemplos de fachadas retabulares maneiristas" (RUÃO, Carlos, 1996, p. 140), está dividida em dois registos. O primeiro, ao qual se acede por escadaria, tem ao centro o portal principal do templo, com arco de volta perfeita, enquadrado por dois medalhões com bustos e encimado por friso decorado por motivos geométricos, ladeado por colunas coríntias estriadas com base decorada por motivos "ponta de diamante". Um entablamento separa o primeiro do segundo registo, que ao centro possui nicho envidraçado com frontão triangular, onde foi colocada a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, ladeado por colunas coríntias que enquadram janelas estreitas. O conjunto é rematado por frontão circular interrompido, encimado por óculo e ladeado por pináculos. A empena da igreja é coroada por cruz e ladeada por pináculos. O interior, de nave única possui tecto em abóbada de canhão e coro-alto assente em arco abatido. As capelas laterais possuem retábulos de talha branca e dourada, intercaladas por janelas e púlpitos quadrados. O arco triunfal, de volta perfeita, abre para a capela-mor decorada por grande retábulo e cadeiral de madeira, com dois janelões de cada lado.
Obedecendo à tipologia desenvolvida pela escola dos Lopes a Igreja da Misericórdia de Guimarães apresenta-se como um dos mais eruditos projectos de um modelo desenvolvido ao longo de 50 anos por todo o Noroeste peninsular depois da edificação da Igreja de São Domingos de Viana da Foz do Lima, da autoria de João Lopes o Moço, em que se aplicam nas fachadas-retábulo as normas maneiristas de verticalidade e ambiguidade de escalas, aliadas a um programa decorativo inspirados nos tratados de arquitectura nórdicos.
Catarina Oliveira
IPPAR
Diploma de Classificação
Decreto n.º 735/74, DG, I Série, n.º 297, de 21-12-1974 (ver Decreto)
Número do Processo
Não disponível