Nota Histórico-Artistica
A propriedade tem as suas origens no final do século XVI, em pleno domínio espanhol de Portugal. Em 1588, Filipe II concedeu a um músico da sua corte, António Roiz de Arouche, os direitos sobre as águas da Serra de Sintra, estatuto que o fez entrar na posse das antigas Quintas da Costa do Penedo e da Urca. Das primeiras edificações então realizadas, nada chegou até nós, desconhecendo-se, por completo, quais as infra-estruturas patrocinadas por Arouche. O conjunto habitacional que hoje se pode contemplar data do século XVIII e foi originado a partir da venda da propriedade por Manuel Francisco de Arouche, em 1758. O novo dono, Bento Pereira Chaves, era cavaleiro da Ordem de Cristo, criado de D. José, fundidor da Casa da Moeda e, mais importante pela ligação à propriedade, sargento-mor de Colares, o que explica a opção por este espaço para sua residência.
A partir desta data, a então Quinta da Porta, ou dos Fiéis de Deus, foi objecto de uma ampla reforma arquitectónica, continuada posteriormente por seus filhos, José Dias Pereira Chaves e Sebastião Dias Pereira Chaves, este último afilhado do Marquês de Pombal. Paralelamente, a rainha D. Mariana Vitória aumentou a propriedade em cerca de 1200 hectares, o que permitiu a definição dos amplos jardins que circundam o conjunto edificado.
Este, é um típico solar barroco de planta em "L", organizado a partir de um pátio central dotado de fonte axial. Dois corpos longitudinais de dois pisos (um deles passando a três por causa do acentuado desnível de terreno numa das extremidades) estruturam as zonas habitacionais. Na fachada virada à via pública, voltada a Sudeste, pode verificar-se a organização dos vãos e sua hierarquia: assim, enquanto que, no andar térreo, as janelas são quadrangulares, as do piso superior são rectangulares, de maior abertura, e sublinhadas por pequeno friso e parapeito ligeiramente saliente. Esta organização dos vãos, simétrica e racionalizada, demonstrando grande cuidado com o ritmo dos alçados, repete-se em todo o restante conjunto e institui-se como uma marca clara da construção.
Dois portões, entre grossos pilares almofadados rematados com vasos, permitem o acesso ao interior, existindo ainda um terceiro portão, de tipologia semelhante, mas cujos pilares são encimados por bustos de figuras femininas míticas. No jardim fronteiro ao solar, para além da fonte que secciona o espaço, existe o acesso ao interior da casa, feito somente ao nível do andar nobre e a partir de longa escadaria que leva ao portal principal, que é decorado superiormente com motivo concheado. No interior do solar, importa destacar a Sala Alta, ou salão nobre, cujas paredes são revestidas por uma vintena de painéis de azulejos azuis e brancos, com temas alusivos à caça e realizados já sob o signo do Rococó. Do conjunto faz ainda parte uma pequena capela de planta longitudinal, dedicada a Nossa Senhora do Carmo e decorada interiormente com azulejos pombalinos e pinturas murais que simulam soluções de talha, integrando a capela-mor um retábulo de talha dourada com tela central alusiva ao orago.
No geral, esta propriedade apresenta uma campanha arquitectónica muito coerente e realizada ao longo de toda a segunda metade do século XVIII. Infelizmente, a centúria seguinte não permitiu uma mesma dinâmica construtiva. Em 1830, Maria do Carmo, filha única de Sebastião Chaves, casou com António Mazziotti, diplomata italiano de serviço no nosso país, passando a quinta a ter o seu nome. Três décadas mais tarde, o conjunto apresentava já sinais de decadência, fruto da inversão económica dos seus proprietários. No final do século, a única herdeira da propriedade, Maria do Carmo Mazzotti, casou com o médico Carlos França, ficando a quinta na posse da sua família até 1980.
PAF