Nota Histórico-Artistica
As origens da igreja matriz do Turcifal remontam, muito possivelmente, à época medieval, pois há notícia da sua existência em 1353 (TORRES, 1988, p. 86), referindo-se-lhe, também, os registos paroquiais do século XVI (SANTANA, 2002, p. 125). Deste templo primitivo, apenas se conservou o pavimento, com lápides sepulcrais quinhentistas, pois a remodelação de que foi alvo, entre a última década do século XVII e meados da centúria seguinte, alterou profundamente a sua arquitectura, conferindo-lhe a estrutura que hoje conhecemos, e cujo projecto é atribuído a João Antunes, arquitecto régio de D. Pedro II.
De acordo com os mais recentes estudos de Daniel Santana (200, pp. 123-138), que temos vindo a seguir, o início das obras ocorreu alguns anos antes do que era anteriormente aceite, permitindo-nos definir várias campanhas de obras, muito possivelmente, resultantes de diversos constrangimentos financeiros. Assim, o começo dos trabalhos deverá situar-se na década de 1690, e em 1708, data apontada por Frei Cláudio da Conceição (1829, pp. 73-74) para o princípio da obra, já a capela-mor se encontrava concluída, pois a tela do retábulo-mor é de Bento Coelho, falecido a 3 de Março desse mesmo ano (SANTANA, p. 132). As dificuldades financeiras fizeram-se sentir, também, ao nível do retábulo proto-barroco, que nunca foi dourado. Por outro lado, as diferenças de tratamento, ao nível dos materiais utilizados, entre a capela-mor, onde não há mármores, e o corpo da igreja, são significativas. Nesta medida, a cronologia de Frei Cláudio deverá corresponder a um segundo período construtivo, que vai de 1708 a 1749 (data inscrita no portal principal), e no qual se concluiu o corpo da igreja.
A decoração do interior do templo reflecte, naturalmente, estas etapas, e à talha, azulejos e pintura do início de Setecentos, opõem-se as telas das capelas laterais, de época joanina.
A arquitectura da igreja matriz do Turcifal apresenta soluções de grande depuração e sobriedade, que podem ser cotejadas com outros trabalhos da autoria de João Antunes, como a igreja matriz de Alcácer do Sal, onde o modelo utilizado está, também, mais próximo da arquitectura chã. Contrariamente a outras obras inovadoras, como Santa Engrácia ou a igreja do Menino Deus, em Lisboa, o arquitecto régio parece ter optado por um modelo mais "tradicionalista", com planta longitudinal de nave única e capela-mor (IDEM, p. 135). A segunda torre, que certamente fazia parte do projecto original, nunca chegou a ser construída, mas o remate da existente deixa adivinhar a sua conclusão numa época já avançada do século XVIII, pois o contraste entre a fachada e o remate em coruchéu com pináculos, é significativo.
No interior, voltamos a encontrar a linguagem decorativa característica de João Antunes. As paredes da nave são revestidas por embutidos marmóreos, de grande dinamismo, numa solução que se encontrava em perfeita consonância com o que se fazia em muitas das igrejas da capital (GOMES, 1998; SANTANA, 2002, p. 129). Permanece por comprovar, todavia, a ligação entre esta igreja e D. Pedro II, que teria contribuído para a sua edificação (IDEM, p. 126).
Por sua vez, também o risco do retábulo-mor é atribuído ao arquitecto régio, com base na comparação com o da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Atouguia da Baleia (IDEM, p. 137).
Edificada em épocas diferenciadas, a igreja de Santa Maria Madalena ganha especial importância no contexto da arquitectura de finais de Seiscentos por representar uma das soluções utilizadas por João Antunes, cuja depuração contrasta vivamente com o interior dinâmico e que conjuga diversas técnicas e discursos plásticos, numa solução barroca, de "obra de arte total".
(Rosário Carvalho)