Nota Histórico-Artistica
O antigo Convento de Nossa Senhora da Assunção de Arraiolos ergue-se em terrenos que outrora integravam uma herdade nomeada Quinta do Paço, propriedade de D. Álvaro Pires de Castro, irmão de D. Inês de Castro, e a quem D. Fernando I fizera 1º Conde de Arraiolos, em 1371. No início do século XVI, as terras pertenciam a João Garcês, filho do Dr. Afonso Garcês de Aragão, secretário dos reis D. Afonso V e D. João II, e irmão de Jorge Garcês, secretário de D. Manuel e genro do cronista Duarte Galvão. João Garcês de Aragão e sua mulher, D. Leonor de Abreu, que chegaram a residir na quinta, e não tiveram descendência, doaram terras e móveis à Congregação de São Jorge de Alga, originária de Veneza, e conhecida em Portugal por Ordem de Santo Elói, em 1526, para que nela se edificasse um mosteiro dedicado a Nossa Senhora da Assunção.
A construção do edifício foi iniciada em 1527, nas vésperas da festa da Assunção da Virgem. Nesse mesmo ano se começou a erguer a capela-mor da igreja, representando a parte mais antiga do conjunto, ainda de inspiração manuelina. A nave, integrando igualmente elementos manuelinos, estaria terminada em c. 1537. Deste período inicial data ainda o portal principal, atribuível ao mestre João Marques, autor da porta do Hospital da vila, este de 1525 (Túlio ESPANCA, 1975). Seguiram-se as obras do claustro, após 1537, e das restantes dependências, que se arrastaram até finais do século XVI. O edifício ficaria praticamente concluído em 1592, tendo entretanto recebido diversas intervenções decorativas. Seguiu-se uma importante campanha de renovação, já de 1700, quando, entre muitas outras alterações, foram executados os requintados silhares de azulejos forrando integralmente a capela-mor e a nave.
O conjunto arquitectónico é composto pela igreja e pelo edifício conventual, a Norte, sendo ambos separados por uma grande torre sineira. A actual fachada do templo, com remate em empena triangular, é já de c. 1590, constando de um alpendre aberto por seis arcos de volta perfeita, em granito, sobre o qual assenta o coro alto, iluminado por janelão rectangular. O alpendre, coberto por abóbada de nervuras abatida, dá acesso à portada, ainda das primeiras empreitadas, de tipologia manuelina, rasgada em arco redondo, com arquivoltas preenchidas com fieiras de boleados assentes em capiteis lavrados com temas geométricos e naturalistas, sobre colunelos de bases entrançadas. A enquadrar o pórtico elevam-se dois finos colunelos torsos, rematados por grandes cogulhos. Sobre as arquivoltas, logo abaixo do remate conopial do conjunto, figuram duas serpentes afrontadas. Na fachada Sul destaca-se uma galeria de feição renascentista. Por fim, o edifício da igreja é ritmado por botaréus cilíndricos com coruchéus cónicos, demonstrando-se claramente nesta mescla de épocas artísticas o hibridismo entre o primeiro estilo, essencialmente manuelino, do primeiro terço de Quinhentos, e o barroco de finais do mesmo século, passando por declinações renascentistas.
A nave, única e de três tramos, é coberta por abóbada nervurada, em tijolo, com chaves manuelinas. Foi inteiramente recoberta, em 1700, e por iniciativa do então reitor, Frei Bernardo de S. Jerónimo, por silhares barrocos de azulejos historiados azuis e brancos, assinados por Gabriel del Barco, compondo um dos mais importantes revestimentos azulejares do país. A capela-mor, ainda de 1527, tem uma elegante abóbada polinervada, igualmente de tijolo, com chaves manuelinas. O retábulo, que substituiu um primitivo de 1547, é de talha barroca do estilo português do tempo de D. Pedro II.
No edifício conventual merece particular destaque o harmonioso claustro renascentista, em dois andares, terminado sob patrocínio dos Duques de Bragança D. Jaime e D. Teodósio I, donatários da vila. A Sala do Capítulo, o Refeitório e a escadaria principal datam já de c. 1570.
Presentemente, o edifício alberga uma Pousada da Enatur, adaptada pelo Arquitecto José Paulo dos Santos. SML