Nota Histórico-Artistica
Edificado sobre uma ermida já existente no século XV (cedida pelo município) onde funcionava a confraria das Servas de Nossa Senhora, o Real Convento das Servas foi instituído em 1598 por iniciativa do padre Perdo Cardeira que, para tal, legou a esta casa, por via testamentária, todos os seus bens. O convento deveria integrar a Ordem Franciscana da Província dos Algarves e reger-se pela Regra de Santa Clara. Ainda por desejo do fundador, o padroado deveria caber ao Duque de Bragança, que aceitou o benefício em 1611, mas que já em 1604 participara na cerimónia solene do lançamento da primeira pedra do complexo conventual (ESPANCA, 1978).
As obras prosseguiram a bom ritmo, estando concluída a igreja no início da década de 1640, e o claustro cerca de seis anos mais tarde, época que coincidiu com a chegada das primeiras religiosas, oriundas do convento das Chagas de Vila Viçosa, em 1645. São conhecidos os nomes de muitos dos oficiais que aqui trabalharam, sob as ordens do mestre pedreiro Paulo Rodrigues (IDEM). A decoração do interior do templo prolongou-se pela segunda metade do século XVII, com o revestimento azulejar de cerca de 1650, e o retábulo-mor, maneirista, de 1693. Na verdade, há testemunhos de que em 1650, decorriam intervenções no âmbito da "guarnição da nave, a cargo do mestre pedreiro Manuel Fernandes, e do ladrilhador Manuel Lopes" (IDEM).
Já no período barroco encontramos uma série de obras que deverão corresponder a uma campanha de beneficiação do templo, onde se destaca a pintura de brutesco do tecto, a cartela da abadessa D. Isabel da Natividade, sobre o portal, de transição do barroco para o rococó e com a data de 1750, e uma série de capelas já da segunda metade da centúria, como a do Menino Jesus no dormitório pequeno, de 1785, ou a do Senhor dos Passos, de 1795.
Com a extinção das Ordens religiosas, e a morte da última freira, ocorrida em 1885, a igreja passou para a posse da Ordem Terceira, e o edifício conventual foi vendido, acabando por ser objecto de uma enorme ruína, que ditou o desaparecimento de boa parte deste imponente conjunto, e do respectivo equipamento.
A igreja denuncia a austeridade da regra imposta às religiosas, pautando-se por uma arquitectura de grande depuração, que tomou como modelo a igreja da Esperança de Vila Viçosa (IDEM). De planta longitudinal, apresenta, naturalmente, entrada lateral, com duas portas de verga recta encimadas por frontões triangulares, entre os quais se exibe o já referido brasão da abadessa D. Isabel da Natividade, de 1750, com o escudo de D. João V. A fachada Sul apresenta uma cartela estucada rococó alusiva ao Santíssimo Sacramento. Junto ao alçado lateral a fachada da igreja dos Terceiros. No interior, todo o espaço é revestido por azulejos de padrão sesicentista, azuis, amarelos e brancos, com tecto pintado setecentista com as representações de Santa Clara, São Francisco e um Santo Papa. Na parede fundeiras, as grades dos coros, e no corpo um púlpito do século XVII, e falso cruzeiro com dois altares, o mais antigo dedicado a São Francisco, de 1672. A capela-mor, também azulejada, exibe no tecto pintura a fresco alusiva a Maria, e o altar-mor, de composição maneirista, foi executado em 1693.
O claustro, do qual apenas se conserva a estrutura, exibe planta quadrada de dois pisos. A fonte que se encontrava ao centro foi levada, em 1950, para a quinta do Pereiro, em Santo António das Areias. Por fim, a torre miradouro, recorda a torre quinhentista de Santa Clara de Évora, com tratamento de influência mourisca, e cujo sino ostentava a data de 1736.
(Rosário Carvalho)