Nota Histórico-Artistica
O testamento de um tal Martim Soudo, datado de 1421, é claro quanto à existência, nesta data, de uma igreja paroquial em São João dos Porqueiros (antiga designação da vila, que se manteve até cerca de 1600) (SILVA, 2002, p.105). Esta constitui, assim, a mais antiga referência à actual igreja matriz de São João das Lampas, templo que, graças a múltiplas reformas posteriores, pouco ou nada conserva do seu passado tardo-gótico. No conjunto, existem dois portais de arco quebrado e de feitura simples, um dando acesso frontal ao alpendre e outro permitindo a entrada pelo lado Sul no interior da igreja. Poderão datar do século XV, mas não existem ainda certezas e, a ser assim, teríamos de considerar a existência do longo alpendre logo pelas primeiras décadas de Quatrocentos, senão mesmo antes.
Nos inícios do século XVI deu-se a principal reforma do templo, constituindo o portal principal o seu mais eloquente testemunho. Ele pode datar-se do "final do primeiro quartel do século XVI" e na dependência do estaleiro do Paço Real de Sintra (IDEM, p.111), que conta com outras obras na região, em especial o portal da igreja de Santo Isidoro de Mafra, que mantém com a obra de São João das Lampas um paralelo muito evidente. A sua estrutura é relativamente complexa, definindo um arco canopial de secção central festonada, com ampla moldura entre colunelos, acompanhando o exterior a curvatura do vão, e terminando verticalmente em cinco grinaldas profusamente decoradas. A sua iconografia foi recentemente objecto de estudo por Carlos Manique da Silva, que salientou a cápsula de papoila como "elemento decorativo dominante" (ligada ao culto do Espírito Santo e à ideia de justiça terrena) e a presença de três figuras humanas, duas nas bases da moldura e a terceira a fechar axialmente o arco (formas de conteúdo trinitário que aludem, provavelmente, à tripla coroação do Espírito Santo por altura das suas festividades) (IDEM, pp.115-116).
A campanha manuelina actuou de forma quase integral no monumento. Para além do portal ocidental, é de assinalar a possível reforma do arco triunfal, que passou a contar com bases e capitéis estilisticamente contextualizáveis com a estética do portal, os capitéis, bases das colunas e mísulas que suportam o coro-alto", a pia baptismal, que não integra, já, o pé primitivo, uma estela discóide actualmente conservada na sacristia e uma interessante pia de água benta, lavrada em mármore e datada de c. 1510, que inclui uma legenda epigráfica alusiva ao seu doador: João Álvares, morador no Sacário, uma localidade muito próxima da vila (IDEM, pp.108-109).
Depois desta ampla reforma, a época moderna conferiu ao conjunto a fisionomia actual, que se inscreve no núcleo de igrejas "da chamada região saloia de Sintra, com a sua torre sineira anexa e a alpendrada que percorre as fachadas poente e sul" (IDEM, p.108). O interior é de nave única e a sua forma data da década de 60 do século XVII. Os azulejos polícromos que revestem as paredes da nave têm as datas de 1665 e 1666, provavelmente alusivas a duas encomendas, e o tecto em caixotões, com pintura a brutesco, é também datável deste período, assim como o púlpito, de caixa rectangular.
Sensivelmente um século depois, realizaram-se as grandes obras de talha, nomeadamente os dois retábulos laterais, dedicados a São Sebastião e a Nossa Senhora da Saúde, e o retábulo-mor, de estrutura idêntica aos anteriores. Uma das grandes riquezas deste templo (para além das suas imagens, que são, ainda, objecto de devoção e romaria no primeiro dia de Setembro), reside no seu acervo pictórico, composto por uma tábua quinhentista alusiva ao Baptismo de Cristo, um tríptico maneirista, representando o Pentecostes, outrora integrante da arruinada capela do Espírito Santo, e um Calvário situado na tribuna do retábulo-mor. Ainda do século XVIII data o revestimento azulejar da secção ocidental do alpendre, em painéis azuis e brancos que contornam e enquadram o portal.
PAF
Diploma de Classificação
Portaria n.º 9/2015, DR, 2.ª série, n.º 4, de 7-01-2015 (ampliou a área de classificação, passando a abranger toda a igreja e o respetivo adro, alterou a designação para "Igreja de São João Baptista, matriz de São João das Lampas, e respetivo adro" e alterou a categoria de classificação para MIP, de acordo com a legislação em vigor) (ver Portaria)
Despacho de homologação de 21-06-2004 do Ministro da Cultura
Parecer favorável de 12-05-2004 do Conselho Consultivo do IPPAR
Informação favorável de 30-05-2003 da DR de Lisboa do IPPAR
Proposta de 26-03-2002 da CM de Sintra para o alargamento da classificação, de forma a incluir toda a Igreja e o adro
Decreto n.º 11 445 (art.º 119.º), de 13-02 1924, inserido na coleção do 1.º Semestre de 1926 (converteu a classificação para IIP) (ver Decreto)
Decreto)
Decreto n.º 8 252, DG, I Série, n.º 138, de 10-07-1922 (classificou o pórtico da igreja (manuelino) como edifício de valor artístico, arqueológico e histórico) (ver Decreto)