Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Prédio de rendimento, albergando a Pastelaria Versailles no piso térreo, enquadra-se no único quarteirão do eixo Saldanha-Campo Pequeno que mantém as suas caraterísticas primo-novecentistas, correspondendo aos nºs 15-15A da Avenida da República.
De planta retangular simples, o edifício estrutura-se em 6 fogos (5 habitacionais com 310 m2 cada, e um comercial, com 290m2 e cave). A fachada principal organiza-se em dois panos de seis registos, de acentuada verticalidade, para o que concorrem algumas propostas formais: no pano esquerdo, sobreposição de janelas de sacada, de verga reta e guardas de ferro bojudas, axialmente dispostas em relação ao portão férreo, de arco pleno, rasgadas numa ampla meia cana adossada à caixa murária que arranca de "balcão" elíptico, decorado com reticulado e gomado incisos, festões e mascarões, sendo rematado por frontão interrompido, assente em colunas clássicas e flanqueado por pares de urnas em ronde bosse. No pano direito, mais largo e delimitado por pilastras da Ordem Colossal, abrem-se três vãos por registo, separados entre si nos três primeiros pisos por colunas compósitas, as do piso térreo robustas e decoradas nos capitéis e nas extremidades dos fustes; de ambos os lados, montras envidraçadas e encimadas por placas metálicas douradas, alusivas à atividade comercial aí desenvolvida. As colunas monumentais dos 1º e 2º pisos têm entase e fustes anelados na extremidade superior. A inclusão de varandas de diferentes perfis nos registos superiores amplia a volumetria e confere uma qualidade cénica ao edifício, que também aqui concentra a maior carga decorativa, dominada pelos concheados do "balcão" do 3º piso, entre duas mísulas orientalizantes, e cuja varanda se inscreve num arco abatido sustentado por pilares lavrados. O 4º piso assemelha-se a uma tribuna, com 4 colunas de fustes e capitéis lisos que sustentam o entablamento e reproduzem o número de pilares que separam as cinco janelas que lhes correspondem. O último piso é em mansarda, revestido a escamas de ardósia, com cobertura em telha, de quatro águas e claraboia em ferro. Frisos de acantos e rosas, pontas de diamante, cabochões, óvulos e elementos heráldicos como "bancos de pinchar" concorrem para a decoração eclética do edifício, a par de balaustradas que alternam, nas fenestrações, com gradeamentos de ferro. Fachada de tardoz com varandas e escadas de salvação de construção metálica, sem merecimento decorativo, à semelhança dos alçados laterais.
História
O edifício, originalmente destinado a habitação multifamiliar e a atividade comercial (restauração), resulta de uma encomenda do industrial João Antunes Lopes ao construtor José Tomás de Sousa. Por tradição, o projeto do imóvel, de 1919, é atribuído a Manuel Joaquim Norte Júnior, muito embora tal documento seja omisso no respetivo Processo de Obra da CML. Da mesma autoria, mas não assinado, será o projeto de 1921, para substituição das divisórias internas da loja por vigas de ferro.
Concluído em 20/09/1921, o imóvel foi vistoriado em 26/11/1921, estando habitado um mês depois. Em 1922, o estabelecimento comercial de Salvador José Antunes foi dotado de um forno a lenha, construído no quintal por Fausto Fernandes. Em 1939, a firma Versailles, Lda., então arrendatária da loja, foi instada a "beneficiar as montras", o que aconteceria por ocasião das obras de remodelação da Pastelaria, inequivocamente projetadas por Norte Júnior entre julho de 1947 e março de 1948 e executadas, respetivamente, por Joaquim da Silva Luzia e Libertário Martins Vagueiro. Em curso entre 1948 e outubro de 1952, os trabalhos dariam ao estabelecimento a sua configuração atual. Exemplo de uma segunda fase construtiva em que os prédios de rendimento das Avenidas Novas exibem frontispícios de maior pujança decorativa, o edifício é hoje ocupado por serviços e pela Pastelaria que lhe dá o nome.
Elsa Garrett Pinho
DGPC, 2015