Nota Histórico-Artistica
Por desejo expresso de D. Manuel, a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia nasceu na cidade do Porto em 1502, tendo sido instituída na capela de Santiago no claustro velho da Sé. Mais tarde, em meados do século, a Confraria inicia o processo de construção de uma igreja própria, na Rua das Flores. No entanto, esta só ficaria totalmente concluída em Janeiro de 1590, data em que o mestre pedreiro Manuel Luís deu por terminada a construção da capela-mor, cujo risco havia sido da sua responsabilidade. O esquema de abóbada seguido pelo arquitecto neste espaço filia-se, embora com dimensões bem mais reduzidas, no esquema que deu origem à capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos, realizada por João de Ruão entre 1565 e 1572.
Cerca de quarenta anos foi o período que demorou a construção da nova igreja. Verificaram-se algumas demoras e é provável que a falta de verbas tenha contribuído para tal, sendo que a capela-mor só foi concluída graças à herança deixada por D. Lopo de Almeida, figura de grande significado no contexto assistencial portuense.
No entanto, a qualidade da construção e os consequentes problemas estruturais ditaram uma profunda intervenção de remodelação e restauro, já no decorrer do século XVIII. Para tal, a Misericórdia consultou diversos técnicos, entre os quais Nicolau Nasoni, que acabaria por conceber a fachada e o arco que sustenta o coro, intervindo ainda, muito possivelmente, na planta da igreja, que se pensa ter sido desenhada pelo Engenheiro Manuel Álvares Martins, responsável geral da obra. Do edifício original conservou-se apenas a capela-mor.
Da fachada de Nasoni resulta um notável exercício de cenografia, que tira partido da topografia sinuosa das ruas envolventes, por forma a maximizar o efeito e a importância da fachada, e aproveita os valores de claro-escuro jogando com a luminosidade portuense que tão bem soube compreender (REAL, 1993, p. 53).
Trata-se de uma fachada simples, cujo esquema de dois andares se aproxima daquele que foi empregue por si próprio na igreja dos Clérigos, mas que, embora mantendo um vocabulário barroco deixa antever, nas "linhas finas e sinuosas", a influência do rococó (SMITH, Robert, 1967; ALVES, 1989, p. 309).
Do interior, de gosto neoclássico datado do século XIX, destaca-se o guarda vento de talha rococó. O retábulo original, pintado por Diogo Teixeira no final do século XVI, desapareceu, restando apenas três tábuas - Anunciação, Visitação da Virgem e Natividade. Executado com as verbas testamenteiras de D. Lopo de Almeida, este retábulo segue, na tábua da Adoração, o modelo do retábulo de Torres Novas do mesmo autor, mantendo as figuras alteadas e a beleza idealizada características da obra de Diogo Teixeira. Destaque ainda para a conhecida pintura Fons Vitae oferecida por D. Manuel à Misericórdia, que, embora de autor desconhecido, não deixa de apontar claramente para a sua filiação na pintura norte-europeia de quinhentos.
Rosário Carvalho
Diploma de Classificação
Decreto n.º 129/77, DR, I Série, n.º 226, de 29-09-1977 (ver Decreto)
Número do Processo
Não disponível