Nota Histórico-Artistica
Fundada no século XIV, a igreja paroquial de Vialonga foi objecto de várias campanhas de obras (principalmente no século XVI) que lhe conferiram o seu aspecto actual, um volume compacto, onde impera a ausência de elementos decorativos. Apenas a fachada é animada por um portal rectilíneo e pela janela do coro, sendo rematada por frontão triangular com relógio no tímpano. Do lado da torre sineira, num plano mais recuado, encontram-se as dependências anexas.
Esta austeridade arquitectónica contrasta fortemente com a decoração do interior, que tira partido da conjugação da talha, da pintura e do azulejo, num repositório muito caraterístico da primeira metade do século XVIII. O espaço, de nave única coberto por abóbada de berço, articula-se com a capela-mor, profunda, através de um arco triunfal de volta perfeita, flanqueado por dois altares de talha dourada seiscentista. Para além do púlpito de mármore com balaústres, no corpo do templo abrem-se várias capelas, uma das quais - da Ordem Terceira de São Francisco - com azulejos relatando a vida do santo patrono da Ordem, de cerca de 1735 e atribuídos aos pintores Bartolomeu Antunes e Nicolau de Freitas, que muitas vezes trabalharam em conjunto (SIMÕES, 1979, p. 337). Por sua vez, a capela baptismal, à entrada, conserva o retábulo quinhentista (1535), de mármore (AZEVEDO, FERRÃO, GUSMÃO, 1963, p. 86). Ainda na nave, as paredes são revestidas por painéis de azulejo, com 21 cenas da Vida da Virgem, executados, muito possivelmente, entre 1745-50 (SIMÕES, 1979, p. 337). As cartelas inferiores exibem figurações dos símbolos marianos das litanias.
Na capela-mor, a talha e o azulejo articulam-se, preenchendo a totalidade da superfície parietal, uma vez que, no primeiro registo, se encontram painéis cerâmicos com cercaduras de folhagens e figurações de anjinhos a brincar (c. 1710) (SIMÕES, 1979, p. 337). Sobre este silhar, o revestimento de talha dourada enquadra pinturas e nichos com imaginária. O retábulo-mor, também de talha dourada seiscentista, apresenta tribuna coberta por uma pintura representando a Assunção da Virgem.
Uma última referência para os azulejos da sacristia, com figurações de episódios profanos, com músicos e jardins, que remontam a cerca de 1730.
Através das datações dos azulejos, e de alguma talha, é possível acompanhar as diferentes fases ou campanhas decorativas de que a igreja foi objecto e que se prolongaram por toda a primeira metade do século XVIII. O primeiro espaço a ser intervencionado foi a capela-mor, sendo também aquele que exprime, de forma mais evidente, a ideia de igreja forrada a ouro. De facto, na liturgia barroca, o altar-mor era o centro para o qual convergiam todos os percursos do templo, e onde se expunha o Santíssimo Sacramento, o que justifica a primazia deste espaço na actualização estética, e também litúrgica.
Por outro lado, e em conformidade com a invocação da igreja, a iconografia incide, maioritariamente, sobre a vida de Nossa Senhora, intercessora privilegiada e exemplo de conduta para os fiéis, numa mensagem directa, complementada pela tela da tribuna, evocativa da Assunção da Virgem.
Nesta medida, a mensagem teológica era eficazmente transmitida, integrando-se num espaço profundamente alterado pela presença da pintura, do azulejo e da talha que contribuiam fortemente, com os seus brilhos e cores, para a desmaterialização das paredes e a animação de uma estrutura arquitectónica de grande rigidez, solução muito comum no nosso país durante o período barroco.
(Rosário Carvalho)