Nota Histórico-Artistica
Imóvel
O Palacete na Rua Jau erguido no alto de Santo Amaro, em Lisboa, no início do século XX, apresenta uma configuração retangular que se estende ao longo da Rua Jau e da Calçada de Santo Amaro, na envolvente imediata do Palácio Vale Flor. A sua arquitetura denuncia o espírito eclético característico do final do século XIX, mas que se prolongou pelos primeiros anos da centúria seguinte nas construções palacianas, entendidas enquanto forma de afirmação de uma burguesia abastada.
Palacete de planta retangular, o imóvel desenvolve-se em três pisos: cave, andar nobre e águas furtadas. Exteriormente, o edifício pauta-se por uma linguagem neoclássica, de feição beaux-arts, bem presente nas fachadas. A sul, a fachada principal com entrada para as carruagens, evidencia um corpo apoiado em colunata que funciona como varanda ao nível das trapeiras, cuja porta termina em frontão triangular. No alçado este, a porta é antecedida por uma escadaria de balaustradas, exibindo a pedra de armas do marquês com a legenda Honor e Labor. A fachada posterior apresenta a entrada de serviço, mais modesta nas suas dimensões e desenho.
O interior congrega um conjunto de influências ecléticas, que percorrem uma gramática barroca, clássica e neorrococó, muito fin de siécle. Para além dos estuques policromados, das pinturas decorativas das paredes e dos pavimentos de madeira exótica, ganham especial interesse a escadaria do átrio principal, o jardim de inverno envidraçado e duas salas com baixos-relevos em estuque neorrococó dourados, com espelhos e talha dourada.
Apesar de amputados em cerca de metade da sua área original, pela desanexação da área sul onde se encontrava a casa dos caseiros e garagens, para prolongamento da Rua Jau, os jardins que envolvem o palacete conservam vegetação subsistente que se encontra marcada por alguns exotismos que remetem para uma ambiência tropical (ou mesmo colonialista) sem se afastar, contudo, do que era usual na Lisboa do final do século XIX e início do XX.
História
O Palacete vai ocupar os terrenos adquiridos por José Luís Constantino, Marquês de Vale Flor, no Alto de Santo Amaro em 1890, anteriormente propriedade do Morgado de Saldanha e do Conde de Folgosa. José Luís Constantino, constituiu uma grande fortuna em São Tomé e Príncipe, onde era proprietário de vastas fazendas, muito tendo contribuído para o desenvolvimento da ilha, o que lhe valeu o reconhecimento do rei D. Carlos, com o título de Marquês de Vale Flor.
O projeto do palacete tem sido atribuído a Nicolau Bigaglia, mas tal como aconteceu no Palácio Vale Flor, é o arquiteto José Ferreira da Costa que a partir de 1910 acompanha todos os trabalhos, sabendo-se que o desenho de alguns detalhes pertence ao arquiteto Miguel Ventura Terra. Os projetos de estuques e tetos são atribuídos ao atelier Jansen-Paris, tendo como construtor, provavelmente Ernesto Lessa.
Construído para habitação da esposa ou do filho do Marquês de Vale Flor, o palacete nunca chegou a ser utilizado por nenhum dos dois, uma vez que a marquesa não regressou de Paris e o filho se suicidou sem ter habitado a casa. O palacete esteve fechado durante vários anos, tendo sido arrendado, em meados do século XX, pela Sociedade Agrícola de Valle Flor, à embaixada da África do Sul e na segunda metade de Novecentos, à embaixada da Coreia do Norte. Após a saída das embaixadas, o palacete voltou a ficar vazio durante um largo número de anos. Foi entretanto utilizado como cenário para filmes de época, tendo aí sido realizados, durante a década de 90 do século XX, filmes como o O Conde de Abranhos e Alves dos Reis, o que acelerou o seu estado de degradação. Em 2003, iniciou-se uma campanha de obras que terminou recentemente e devolveu ao palacete o seu esplendor inicial.
Paulo Martins
DGPC, 2015
Diploma de Classificação
Portaria n.º 160/2016, DR, 2.ª série, n.º 102, de 27-05-2016 (ver Portaria)
Relatório final do procedimento aprovado por despacho de 14-03-2016 da diretora-geral da DGPC
Anúncio n.º 228/2015, DR, 2.ª série, n.º 192, de 1-10-2015 (ver Anúncio)
Despacho de concordância de 23-07-2015 do diretor-geral da DGPC
Parecer favorável de 8-07-2015 da SPAA do Conselho Nacional de Cultura
Proposta de 3-06-2014 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a classificação como MIP do Palacete na Rua Jau, incluindo o jardim e todos os anexos
Anúncio n.º 243/2013, DR, 2.ª série, n.º 129, de 8-07-2013 (ver Anúncio)
Procedimento retomado em 2013 devido à desistência do processo judicial
Prazo de caducidade suspenso até ao termo do processo judicial em curso
Procedimento prorrogado pelo Decreto-Lei n.º 115/2011, DR, 1.ª série, n.º 232, de 5-12-2011 (ver Diploma)
Procedimento prorrogado pelo Despacho n.º 19338/2010, DR, 2.ª série, n.º 252, de 30-12-2010 (ver Despacho)
Despacho de abertura de 25-01-2006 da vice-presidente do IPPAR
Proposta de 16-01-2006 da DR de Lisboa para a abertura do procedimento de classificação
Requerimento de classificação de 28-12-2005
Número do Processo
Não disponível