Nota Histórico-Artistica
Imóvel
O Palacete Alves Machado, na Rua do Salitre, constitui um exemplar típico dos finais do Romantismo, e um dos raros casos em que o programa decorativo original, datado de finais do século XIX, nos chegou intacto. A propriedade, que inclui a casa e um talhão ajardinado, não sofreu nenhuma alteração de monta até à atualidade. O palacete é um edifício neoclássico, de planta quadrangular, levantado a curta distância do muro exterior. O telhado em cruz, com braços de três águas, define quatro fachadas idênticas, compostas por um pano central de três pisos, cada um rasgado por três janelas de sacada com guardas ornamentais, e dois panos laterais de dois pisos com vãos idênticos. Nas esquinas do piso superior, sobre os panos laterais, abriam-se quatro varandas de planta retangular com balaústres, atualmente transformadas em marquises envidraçadas. A fachada principal, voltada para a Rua do Salitre, tem a entrada, acessível por um duplo lanço de escadas, no mesmo eixo de um portão aberto no muro exterior, flanqueado por dois óculos elipsoidais.
O átrio dá acesso a uma escada de madeira em dois lanços simétricos semicirculares com guarda em ferro forjado, iluminada por claraboia, que constitui o coração da casa. A decoração eclética do interior, um dos principais motivos de interesse do palacete, começa a impressionar-nos justamente a partir desta escadaria de requintado desenho e execução, primeiro testemunho da condição abastada dos Alves Machado.
O programa habitacional segue de perto a orgânica funcional característica da época, adaptada ao que constituiria então uma moderna habitação burguesa, com salas comunicantes, salões nobres dispostos ao longo da fachada e áreas de serviço no piso térreo. Sob a claraboia, o teto, assente em delgadas colunas de ferro, está decorado com medalhões em estuque e pinturas em trompe-l'oeil, atribuídas, como todas as restantes, ao pintor decorativo José Maria Pereira Júnior, conhecido por Pereira Cão, considerado o mais operoso dos nossos pintores decoradores do século XIX.
Ao longo dos patamares encontram-se as pinturas mais interessantes e claramente românticas do palacete, um conjunto de representações naturalistas a óleo sobre tela, que incluem fauna, flora e vistas idealizadas de Portugal, sendo um testemunho dos dotes cenográficos de Pereira Cão. São acompanhadas por temas naturalísticos de cuidada execução e colorido, onde pontuam aves de jardim e aves exóticas, sendo estas últimas uma segura alusão à estadia dos irmãos Alves Machado no Brasil.
As salas que abrem para a escadaria, decoradas com pinturas murais, apresentam diversos estilos, fazendo alusões ao mundo greco-romano da Antiguidade Clássica, ao estilo francês Luís XVI e ao neoárabe.
História
O lote onde se ergue o palacete fazia parte dos terrenos que os frades cartuxos aí detinham desde a primeira década do século XVII, onde haviam erguido o seu Hospício do Monte Olivete, vendidos em hasta pública em 1834, após a extinção das ordens religiosas. A casa atual foi construída em 1876, e vendida logo em 1879 a António José Alves Machado, "negociante", por cuja morte passou para o irmão, Manuel Joaquim Alves Machado, então já agraciado com o título de conde. Ambos haviam feito o percurso clássico dos emigrantes do norte de Portugal, instalando-se no Brasil em 1834, onde fizeram fortuna.
Sem interesse em habitar a casa, o conde de Alves Machado vendeu-a em 1899 ao conselheiro Joaquim José Cerqueira, também emigrante regressado do Brasil, que chegou a ser, por duas vezes, deputado da nação. A casa manteve-se como morada familiar até 1929, quando foi alugada, primeiro ao Instituto de Estatística e depois ao Colégio Feminino Francês. Em 1973 o palacete é comprado pelo Estado, que o vendeu à Fundação Oriente em 1989. Em dezembro de 2015 a propriedade foi adquirida pela Pavilions West Lisbon - Investimentos Imobiliários e Turísticos, Unipessoal, Lda.
Sílvia Leite
DGPC
2016
Diploma de Classificação
Portaria n.º 663/2018, DR, 2.ª série, n.º 237, de 10-12-2018 (ver Portaria)
Relatório final do procedimento aprovado por despacho de 18-10-2018 da diretora-geral da DGPC
Em 8-08-2018 a CM de Lisboa informou nada ter a objetar à classificação em causa
Anúncio n.º 79/2018, DR, 2.ª série, n.º 105, de 1-06-2018 (ver Anúncio)
Despacho de concordância de 4-04-2018 da diretora-geral da DGPC
Parecer favorável de 21-03-2018 da SPAA do Conselho Nacional de Cultura
Proposta de 16-01-2017 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a classificação como MIP
Anúncio n.º 129/2016, DR, 2.ª série, n.º 96, de 18-05-2016 (ver Anúncio)
Despacho de abertura de 13-04-2016 da diretora-geral da DGPC
Proposta de 4-04-2016 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a abertura de procedimento de classificação de âmbito nacional
Requerimento de classificação de 25-08-2015 de particular