Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Localizada a Oeste do castelo da vila de Estremoz, muito próximo do grande convento dos Padres Congregados do Oratório de São Filipe Néri, a antiga igreja do Hospital da Misericórdia de Estremoz encontra-se profundamente alterada relativamente ao que teria sido o seu projeto original datado do século XVII.
Em termos urbanísticos, o edifício da igreja encontra-se em posição recuada relativamente ao conjunto edificado da envolvente, contando ainda com um adro junto à sua entrada principal. Este antigo templo surge orientado Este-Oeste, possuindo uma planta retangular, cobertura de duas águas, encontrando-se a sua fachada principal virada ao largo da República, antigo Largo da Porta Nova. A frontaria surge também marcada por pilastras que terminam em pináculos ao nível da cobertura, sendo que o seu remate superior não corresponderá ao que teria sido o desenho original, supostamente um frontão triangular (CARVALHO, 2007, p. 11).
Do projeto seiscentista da igreja restam, no entanto, as janelas arquitravadas da fachada, bem como do edifício adossado a Sul, supostamente a antiga Casa do Despacho. Pelo contrário, a entrada do templo sofreu uma adulteração profunda certamente quando o espaço deixa de ter funções religiosas observando-se hoje uma simples porta em arco.
No interior notam-se também diversas alterações, nomeadamente na antiga nave da igreja hoje dividida em dois pisos. Apesar destas modificações foi possível concluir que as paredes do templo chegaram a ser totalmente revestidas por painéis de azulejo azul e branco, sendo que hoje apenas se mantêm os do piso inferior.
Apesar das lamentáveis perdas que sofreu este monumento trata-se, ainda assim, de um importante edifício com notáveis exemplares de painéis azulejares datados de 1712, conforme inscrição presente no subcoro. Igualmente no subcoro observa-se uma representação em azulejo de Nª Senhora da Misericórdia que forra por completo a abóbada deste espaço. Ainda ao nível do piso térreo subsistem um conjunto de azulejos com a representação das Virtudes enquanto, no piso superior, os painéis que entretanto foram retirados aludiam às Obras de Misericórdia, baseando-se estas em cenas bíblicas.
Como complemento às figuras representadas, foram desenhados letreiros com designações ou excertos de versículos facilitando, assim, o entendimento do que se procurava transmitir.
De notar, ainda, a presença no intradorso do arco que divide a nave do subcoro, de uma original decoração em azulejos polícromos a imitar embutidos marmóreos e, nas paredes da antiga nave, um inusitado rodapé de azulejos de figura avulsa certamente de época posterior.
Não é possível determinar com segurança quem teria sido o autor destes azulejos surgindo, como provável, o nome de António Oliveira Bernardes, mestre nascido em Lisboa (CARVALHO, 2007, p. 14). História
A 13 de outubro de 1578 o Cardeal D. Henrique determina que o Hospital de Nossa Senhora dos Mártires, situado na Porta Nova, fosse anexado à Misericórdia de Estremoz. Em 1610, ou pouco depois, iniciam-se as obras do templo, durando os trabalhos, que incluíram igualmente o hospital, até julho de 1666 (CARVALHO, 2007, p. 12).
Depois de ter servido como armazém de cereais, fábrica de cortiça, teatro etc., é no início do século XX, que a antiga igreja será dividida em dois pisos, destinando-se o superior ao "Centro Republicano" e, o inferior, à "Sociedade Recreativa Popular Estremocense", instituição que ainda hoje ali se mantém, servindo o espaço como sala de jogos, ensaio ou leitura.
A totalidade dos painéis de azulejos do piso inferior permaneceram durante anos ocultos, mas preservados, dado terem sido pintados por cima, enquanto os do primeiro piso foram retirados pelo proprietário do imóvel, o médico Artur Assis e Santos, supostamente como medida de salvaguarda, permanecendo dois desses painéis emoldurados em casa de seus familiares.
Maria Ramalho/DPIMI/2020.