Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Situado numa das artérias laterais da Praça do Rossio, em Lisboa, o Café Nicola é um dos mais antigos e emblemáticos estabelecimentos do género da capital. O edifício onde se insere, de planta retangular e traça pombalina, estende-se até à Rua 1.º de Dezembro, dividindo-se em seis andares, incluindo mansarda.
A fachada do café apresenta um programa decorativo que recria um gosto neoclássico, com um grande frontão rebaixado emoldurando toda a entrada no interior do estabelecimento, adornado pelo nome do café, terminando em volutas assentes sobre dois pilares em forma de pirâmide invertida. Em cada uma das extremidades foi colocada a estátua de um peixe, semelhante aos monstros marinhos que acompanham as representações mitológicas clássicas de Tritão. Ao centro, duas colunas compósitas de mármore ladeiam a entrada, e todo o conjunto é ligado por uma estrutura de ferro e vidro que molda as montras e a porta.
O interior abre-se numa ampla sala modernista de linhas estilizadas, totalmente coberta por composições de espelhos e vidro integrados em molduras de metal, que definem as entradas de luz natural e determinam uma visualização geométrica do espaço.
História
Fundado nos finais do século XVIII, o botequim Nicola ficou famoso por ser um dos locais de tertúlia de eleição de artistas e pensadores da cidade de Lisboa nos últimos anos do regime absolutista, sendo o seu cliente mais notório o poeta Bocage. Ao longo da centúria de Oitocentos, o espaço teve diversas funções comerciais, albergando uma livraria até 1880.
Cerca de 1929 Joaquim Albuquerque, fundador do Café Chave d'Ouro, também situado no Rossio, comprou o estabelecimento e decidiu (re)fundar o Café Nicola. Para tal, apresentou à Câmara de Lisboa um projeto de Manuel Joaquim Norte Júnior, que remodelou todo o espaço e apresentou um minucioso plano que, para além da arquitetura e do programa decorativo, incluiu também o desenho de mobiliário e utensílios.
O arquiteto, que havia desenhado o Chave d'Ouro para Albuquerque em 1915, e remodelado o Brasileira do Chiado em 1922, concebeu no Nicola um desenho "com o mesmo gosto decorativista dos anteriores" (PAIXÃO: 1986, p. 73). Neste projeto, parece recriar a glória do botequim de finais de Setecentos, prescindindo dos pormenores decorativos a que a sua arquitetura eclética havia habituado a cidade de Lisboa nos quinze anos anteriores, como os grandes mascarões e cariátides que desenhou para os edifícios habitacionais das Avenidas Novas, ou as exuberantes composições vegetalistas que se encontram, por exemplo, no prédio Salreu, e optando antes por um programa de inspiração neoclássica.
O interior desenhado por Norte Júnior, que comportava um luxuoso espaço com talha de madeira, espelhos e pinturas alusivas à vida do poeta Bocage da autoria de Fernando Santos, foi totalmente alterado em 1935 pelo projeto modernista de Raul Tojal; do projeto original subsistiu a fachada e a escultura de Bocage da autoria de Marcelino de Almeida, enquanto Fernando Santos voltou a pintar novas telas para substituir as originais.
Catarina Oliveira
DGPC, 2015.
Diploma de Classificação
Anúncio n.º 30/2019, DR, 2.ª série, n.º 36, de 20-02-2019 (ver Anúncio)
Despacho de abertura de 20-12-2018 da diretora-geral da DGPC
Proposta do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a abertura de procedimento de classifiucação de âmbito nacional
Número do Processo
Não disponível