Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Projeto de Jorge Viana (JV) - (1924-2010) -, a Igreja da Sagrada Família (c. 1965) foi edificada num terreno junto ao bairro operário da Tabaqueira, em Albarraque. A implantação aproveitou a topografia do local (plataforma dominante sobre a fábrica e o bairro), e teve em conta a sua ligação com outros equipamentos existentes na sua envolvente (centro cultural, etc.). A igreja tinha a missão de servir de suporte espiritual à relação entre os dois universos que moldavam a alma do novo lugar, a fábrica e o bairro operário, e de esbater as tensões que estes geravam entre si.
No exterior, destacam-se três elementos que caracterizam a igreja: a galeria porticada, que enquadra dois dos seis lados que compõem o adro hexagonal da igreja, pensado por JV como uma zona de convívio para a comunidade, abrigada do sol, chuva ou ventos, funcionando também como extensão da igreja; o grande óculo envidraçado na fachada principal, que adopta o modelo geométrico triangular-hexagonal; e o campanário que, constituindo um prolongamento do pilar do pórtico principal, fica ligado à estrutura.
O acesso ao espaço interior faz-se através de três pórticos. O espaço ocupado pelos fiéis vai beneficiar da geometria hexagonal, de forma a criar uma área para a assembleia que rejeita o esquema organizativo longitudinal tradicional, optando por uma disposição dos bancos tão larga quanto extensa, mas mais próxima, do altar, respondendo, quer ao programa traçado pelo SNIP, quer aos pressupostos resultantes do Concílio Vaticano II (1963).
JV, através de dois alargamentos da base hexagonal, vai criar mais dois espaços transversalmente opostos, comunicantes com a nave, espaços mais reservados, quer pelo pé-direito mais reduzido, quer pela iluminação mais contida. No primeiro dos espaços, situado próximo da entrada, encontram-se o batistério e o confessionário. Com ligação ao espaço litúrgico, junto ao santuário, encontra-se a sacristia, integrada num hexágono menor associado a tardoz ao volume da igreja. No piso inferior situa-se um amplo salão que dividido por um conjunto de painéis, integrados no módulo, permitirão a transformação do espaço, dando origem a várias salas.
O interior da igreja é plasticamente forte, quer pela ampla espacialidade, e diversidade de texturas, quer pelo seu património integrado: azulejaria figurativa, da autoria de Lima de Freitas, O Baptismo de Jesus no rio Jordão, por São João Baptista, e a Sagrada Família, de padronagem e abstratos de Jorge Viana; calçada portuguesa; vidro colorido; peças decorativas, sacrário (Graziela Albino); estatuária (Virgem com o Menino ao Colo, de Maria do Carmo d¿Orey, e em colaboração com Graça Costa Cabral, São José Operário); mobiliário diverso: ambão, bancos da assembleia, confessionário, cadeiras, floreiras, candelabro, quer pelo uso da luz solar no interior da igreja, transmitida e filtrada por aberturas de diferentes dimensões, nomeadamente através do enorme óculo envidraçado, formando uma obra de arte geral, de caráter discreto e sóbrio.
História
A instalação da Fábrica de A Tabaqueira em Albarraque (1962) motivou a construção, de um bairro social e de diversos equipamentos, o pavilhão dos solteiros, o centro comercial, creche e jardim-de-infância, refeitório, centro de saúde, centro cultural e social (demolido), e duma igreja. O primeiro projeto, da autoria do Arq. Vasco Regaleira (1963), inspirado nas igrejas rurais de Sintra, foi recusado, considerando o SNIP que a igreja a construir devia ser um templo "moderno" e adequado a uma liturgia em pleno processo de renovação. O arquiteto selecionado foi Jorge Viana, que recebeu o novo programa em 1964. A igreja da Sagrada Família foi uma das primeiras a concretizar o espírito da reforma litúrgica conciliar. Num rasgo de modernidade de conceção chamava a si própria a missão de servir de suporte espiritual à relação entre o universo laboral e o social que moldavam a alma do novo lugar.
Paulo Martins
DGPC, 2016
Diploma de Classificação
Portaria n.º 81/2019, DR, 2.ª série, n.º 10, de 15-01-2019 (ver Portaria)
Anúncio n.º 107/2018, DR, 2.ª série, n.º 120, de 25-06-2018 (ver Anúncio)
Despacho de concordância de 9-04-2018 da diretpra-geral da DGPC
Parecer favorável de 21-02-2018 da SPAA do Conselho Nacional de Cultura
Proposta de 21-04-2017 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a classificação como MIP da Igreja da Sagrada Família, ou Igreja do Bairro da Tabaqueira, incluindo o património móvel integrado
Anúncio n.º 220/2016, DR, 2.ª série, n.º 198, de 14-10-2016 (ver Anúncio)
Despacho de abertura de 9-08-2016 da diretora-geral da DGPC
Proposta de 9-08-2016 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a abertura de procedimento de classificação de âmbito nacional da Igreja da Sagrada Família, ou Igreja do Bairro da Tabaqueira, incluindo o património integrado
Requerimento de classificação de 6-05-2013 do Grupo de Amigos de Jorge Viana para a classificação da Igreja do Bairro da Tabaqueira