Nota Histórico-Artistica
Imóvel
O Mosteiro Santa Maria Vallis Misericordiae, situado em Laveiras, Caxias, é constituído pela igreja, antecedida por largo adro que dá acesso a todo o conjunto, e pelas dependências monásticas anexas, culminando no claustro principal em torno do qual se distribuem as celas dos padres. O adro é fechado por dois blocos modernos, onde ficavam as antigas casas da portaria, por um talude de sustentação de terras, e pelo muro original com o portal principal. O recinto terá mantido a delimitação primitiva da segunda metade do século XVII, consolidada ao longo da centúria seguinte, e pensada de forma a respeitar as exigências de silêncio e solidão da clausura cartusiana.
A fachada do templo, de traçado erudito, terá influência italiana, como na Cartuxa de Évora, apesar da matriz já setecentista de Laveiras. O interior, de nave única coberta por abóbada de berço, está despojado de imaginária e mobiliário, embora se conheçam descrições do seu anterior acervo, que incluiria uma tela de Francisco Vieira Lusitano e outras de Domingos Sequeira, outrora noviço no cenóbio. A capela-mor, sobrelevada, exibe um monumental retábulo-mor setecentista que abriga hoje as imagens de Nossa Senhora da Conceição, São José e São Bruno.
A sacristia anexa, abobadada, abre para o claustro menor, centrado por fonte de base hexagonal e dando acesso a diversas capelas dependências, entre as quais a Casa do Colóquio, ligada por um corredor abobadado ao claustro maior. Este, ainda que incompleto, constitui o elemento de maior destaque do conjunto: as alas sul e poente, abertas por arcos redondos, dão acesso aos corpos das celas monásticas, cadaqual composto originalmente por três pequenos quartos e um claustrinho com horto e fonte, cercado por altos muros dos quais restam os possantes paramentos exteriores do lado poente, hoje cobertos por terraço. O interior das dependências monásticas foi adaptado a diversos usos posteriores a 1834, estando atualmente muito degradado.História
A Cartuxa lisboeta foi instituída em 1598, sendo a igreja sagrada em 1614. O mosteiro original, levantado no vale da ribeira de Barcarena e estruturado em torno de um pequeno claustro, foi ampliado a partir dessa data por iniciativa do prior D. Basílio de Faria, cujo projeto incluiu a planificação dos terrenos com um criptopórtico abobadado sobre o qual foi levantada boa parte do conjunto. O novo cenóbio respeitava a tipologia de um "deserto" cartuxo, rodeado de muros de clausura e terrenos garantindo a reclusão e o sustento da comunidade. No claustro maior ficaram, por falta de patrocínios, erguidas apenas oito celas, e a mesma razão determinou que nunca se chegasse a construir o segundo claustro menor. A primeira igreja foi demolida em c. 1736, e substituída por um templo patrocinado por D. João V, que sofreu muito com o Terramoto de 1755 e teve obras orientadas por Carlos Mardel.
A Cartuxa de Laveiras chegou ao século XIX enfrentando diversas vicissitudes, incluindo as Invasões Francesas, a revolução de 1820, e, logo em 1823, uma primeira tentativa legislativa de supressão do mosteiro, de tal forma que poucos monges aí estavam quando a casa foi abandonada. Em março de 1834, a extinção definitiva do mosteiro leva à sua venda e demolição parcial. Voltaria à pose do Estado, servido como alojamento de destacamentos da Engenharia Militar e depois como Casa de Correção, atual Centro Educativo Padre António de Oliveira. As obras de adaptação conduziram a mais demolições e à anexação de edifícios modernos, mesmo antes do conjunto monástico receber a Escola Preparatória de Caxias, que aí funcionou até 2001 e motivou a construção de pavilhões pré-fabricados no claustro grande. Hoje em dia, a Cartuxa de Laveiras, um dos dois únicos cenóbios cartusianos do país, aguarda uma requalificação que tenha em conta o seu interesse simbólico e arquitetónico, a integridade da cerca e a sua significativa relação com a envolvente.
Sílvia Leite
DGPC
2019
Diploma de Classificação
Portaria n.º 257/2026/2, DR, 2.ª série, n.º 97, de 20-05-2026 (ver Portaria)
Relatório final do procedimento aprovado por despacho de 15-04-2026 do presidente do Património Cultural, IP
Anúncio n.º 243/2024, DR, 2.ª série, n.º 184, de 23-09-2024 (ver Anúncio)
Despacho de confirmação de 13-08-2024 do presidente do Património Cultural, I.P., com o consequente arquivamento do pedido de abertura de procedimento de classificação de âmbito nacional da Quinta da Cartuxa - jardins - terrenos agrícolas
Despacho de concordância de 14-07-2023 do diretor-geral da DGPC
Proposta de 8-03-2023 da SPAA do Conselho Nacional de Cultura favorável apenas à classificação da igreja e mosteiro
Requerimento de 11-12-2021(?) de particular para a classificação da Quinta da Cartuxa - Jardins e terrenos agrícolas (toda a cerca)
Proposta de 27-03-2019 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a classificação como MIP
Anúncio n.º 11/2019, DR, 2.ª série, n.º 10, de 15-01-2019 (ver Anúncio)
Despacho de 30-11-2018 da diretora-geral da DGPC a determinar a abertura do procedimento de classificação de âmbito nacional
Proposta de 12-11-2018 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para a abertura de procedimento de classificação de âmbito nacional da Igreja e Mosteiro da Cartuxa de Santa Maria Vallis Misericordiae
Requerimento de 20-06-2017 da CM de Oeiras para a classificação da Igreja, claustros e edifícios do extinto Convento de Santa Maria do Vale da Misericórdia da Ordem Cartuxa de São Bruno
Número do Processo
Não disponível