Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Localizada na zona limítrofe da freguesia de Caramos, isolada do aglomerado habitacional, a Igreja de São Martinho integra um antigo mosteiro agostinho de fundação medieval. O templo, que é atualmente a sede paroquial local, foi edificado no século XVII.
A estrutura desenvolve-se numa planta retangular, com diferenciação dos volumes da nave e da capela-mor. Precedida por largo com escada, a fachada é delimitada nos cunhais por pilastras com pináculos. No registo térreo, ao centro, rasga-se o portal de moldura retangular, com frontão triangular ladeado por pináculos embebidos no pano murário. Sobre este abre-se a janela do coro, com moldura retangular de granito e gradeamento. Um friso pétreo delimita o último registo, que exibe o frontão triangular rematado por cruz, com nicho central decorado com volutas, onde se integra a escultura de São Martinho.
À esquerda ergue-se a torre sineira, rematada por coruchéu, de planta quadrangular e três registos; o primeiro vazado, o segundo com relógio mecânico, e o terceiro integrando as aberturas das sineiras, exibe uma sineira de granito com volutas e pináculos, destacada da anterior, que corresponde à campanha de obras mais antiga, sendo igual ao programa decorativo da fachada.
O interior, de nave única, possui coro-alto em talha dourada, com guarda de motivos vegetalistas e passagem para o órgão de tubos polícromo, situado do lado da Epístola. O espaço da nave é coberto por falsa abóbada de berço, com caixotões de madeira polícroma. Do lado do Evangelho ergue-se o púlpito quadrangular, de talha dourada com ornamentos de flores e folhagens assente sobre mísula com um putto. Junto a esta abre-se a capela dedicada ao Senhor dos Passos, em arco pleno de granito com retábulo de talha dourada, frente à qual se ergue outra capela semelhante, dedicada a Santo António.
O arco triunfal, de volta perfeita, é ladeado por retábulos colaterais, dedicados a Nossa Senhora do Rosário e a Cristo Crucificado, cuja talha dourada se prolonga num exuberante revestimento sobre o arco cruzeiro, ao centro do qual foi colocada a imagem de São Martinho. A capela-mor, profunda, é revestida por caixotões de madeira polícromos, exibindo ao fundo a mesa de altar em talha, ladeada por dois anjos tocheiros. Sobre esta ergue-se o sacrário e o retábulo-mor, com trono de cinco degraus e arquivolta dupla, repleto de folhas de videira, cachos de uvas e putti, ladeado pelas imagens de Santo Agostinho e São Teotónio.
História
A Igreja de São Martinho de Caramos integra o antigo mosteiro agostinho masculino com o mesmo nome, fundado em 1090 por D. Gonçalo Mendes e sagrado em 1141. O cenóbio terá tido importância significativa na época da Reconquista, e foi objeto de várias doações régias, mas deste complexo medieval nada resta. Durante as centúrias seguintes, o mosteiro atravessou períodos de dificuldades financeiras, culminando numa grave crise na segunda metade do século XV, depois do qual ficou sob gestão de comendatários.
Em 1528 as Visitações registavam o mau estado do complexo monacal, "mal servido no esprituall e peor repayrado no temporal" (Fernandes: 2011, 104), e somente em 1594 o mosteiro de Caramos foi integrado na Congregação de Santa Cruz de Coimbra, o que permitiu a sua reedificação posterior.
A estrutura do templo denuncia a campanha seiscentista, nomeadamente o programa decorativo da fachada, de linhas maneiristas tardias com elementos de inspiração flamenga, datando possivelmente da primeira metade da centúria. Já o ornamento interior derivará de uma campanha posterior, documentando-se o contrato de execução do retábulo em 1692. Pelas semelhanças formais, o restante trabalho de talha terá sido realizado pelos mesmos anos.
Em 1770 o Mosteiro de Caramos foi extinto e incorporado no mosteiro agostinho de Mafra, e a Igreja de São Martinho tornou-se sede de paróquia local, estatuto que mantém até hoje.
Catarina Oliveira
DGPC, 2017
Diploma de Classificação
Portaria n.º 367/2017, DR, 2.ª série, n.º 203, de 20-10-2017 (ver Portaria)
Relatório final do procedimento aprovado por despacho de 27-09-2017 da diretora-geral da DGPC
Anúncio n.º 103/2017, DR, 2.ª série, n.º 126, de 3-07-2017 (ver Anúncio)
Despacho de concordância de 20-01-2017 da diretora-geral da DGPC
Parecer favorável de 13-12-2016 da SPAA do Conselho Nacional de Cultura
Proposta de 14-10-2015 da DRC do Norte para a classificação como MIP
Anúncio n.º 192/2014, DR, 2.ª série, n.º 139, de 22-07-2014 (ver Anúncio)
Despacho de abertura de 30-04-2014 do diretor-geral da DGPC
Proposta 24-02-2014 da DRC do Norte para abertura de procedimento de classificação
Número do Processo
Junto ao Calvário ou Via Sacra e Capela do Encontro.