Nota Histórico-Artistica
Embora possua vestígios de ocupação humana que remontam à mais alta antiguidade, a povoação de Caldas da Rainha foi fundada em 1485 pela rainha D. Leonor, mulher de D. João II (1455-1495) e filha do infante D. Fernando, justamente na mesma altura em que criava a Misericórdia e o balneário, graças às propriedades curativas das águas termais existentes na localidade.
Foi neste âmbito que, em 1495, se obteve a devida autorização papal para sagrar uma capela junto ao Hospital Termal, com a particularidade de a capela-mor ter sido erguida sobre uma das nascentes termais, até que, dois anos volvidos, os utentes hospitalares eram, finalmente, autorizados a frequentá-la, acedendo-lhe através de um corredor que os ligava, datando, no entanto, de 1500, a conclusão das obras principais da ermida, elevada a Igreja Matriz logo em 1510, sendo de igual modo conhecida por "Igreja de Nossa Senhora do Pópulo".
Traçado pelo arquitecto do Mosteiro da Batalha, Mateus Fernandes I, e inscrevendo-se no ciclo pré-manuelino, quando "[...] as formas orgânicas e a gramática decorativa denunciam o estilo nascente." (ALMEIDA, J. A. F., 1976, p. 162), o templo, de nave única coberta por abóbada de artesões, possui capela-mor com abóbada de nervuras dela separada por arco triunfal policêntrico, imitando efeitos acortinados, encimado por escudo régio e tríptico de pintura quinhentista sobre madeira figurando episódios da Paixão de Cristo, albergando retábulo marmóreo de colunas clássicas, duas esculturas da Anunciação (apostas ao altar-mor durante a campanha joanina) e acesso à sacristia (coroada exteriormente pela torre sineira com arcos geminados encimados por relógio), por intermédio de porta ricamente lavrada. Quanto às paredes, tanto da nave, como da capela-mor, apresentam-se cobertas, na totalidade, por painéis azulejares seiscentistas, de padrão geométrico amarelo e azul, contrariamente aos frontais de azulejos quinhentistas dos retábulos de talha dourada dos altares colaterais. Do interior merece ainda destaque a pia baptismal, de planta octogonal, em forma de cálice e profusamente rendilhada, atribuída aos escultores da pia da Sé Velha de Coimbra (Id., Idem, p. 163).
Entretanto, parte significativa do tesouro da igreja, nomeadamente no que às pratas se refere, foram entregues à "Casa da Moeda" em 1808, até que, em 1853, um incêndio de enormes proporções atingiu a área hospital e a própria igreja, obrigando ao seu encerramento temporário, uma situação que seira, contudo, agravada passados apenas cinco anos devido a um tremor de terra.
A relevância atribuída por estetas e investigadores portugueses de oitocentos formalizou-se em 1910, com a sua inclusão na primeira lista de edifícios antigos a classificar como "monumentos nacionais".
[AMartins]