Nota Histórico-Artistica
Não é conhecida a data da fundação desta ermida, nem da confraria a que se encontrava associada, muito embora, tradicionalmente, se faça remontar a sua edificação ao início do século XVI. Assim o indica o cónego secular de São João Evangelista, Jorge de São Paulo, ao relatar as antiguidades das caldas da Rainha..., aludindo a um boticário, de nome Pero Taborda, como fundador da ermida, para sua sepultura (PAULO, 1959, p. 9).
O retábulo quinhentista, encomendado a Diogo Teixeira, e executado em parceria com o seu discípulo Belchior de Matos, cerca de 1595, é uma das memórias desta primitiva igreja, conservada pela intervenção setecentista. Na verdade, em 1719, a ermida foi cedida à Ordem Terceira de São Francisco, passando a ser dirigida pelos frades franciscanos arrábidos do convento de São Miguel das Gaeiras (HORTA, 1993, p. 162), iniciando-se, então, a remodelação do templo, onde são bem visíveis os emblemas da ordem. Por outro lado, a presença regular de D. João V, e toda a corte que o acompanhava, nas Caldas da Rainha, entre 1742 e 1748, motivou a intervenção num conjunto de imóveis civis e religiosos, podendo a ermida do Espírito Santo integrar-se, ainda, nesta dinâmica. Em todo o caso, a depuração arquitectónica do edifício inscreve-se numa tradição chã, seiscentista, reveladora da austeridade da Ordem. A fachada é flanqueada por pilastras nos cunhais, e coroada por um frontão triangular aberto por óculo. A decoração concentra-se no portal, de verga recta, encimado por frontão semicircular, com o brasão da Ordem Terceira no tímpano.
No interior, de nave única com coro alto, a reforma barroca trouxe dois altares colaterais, de talha dourada e policromada, datáveis de meados do século XVIII, e a remodelação do altar-mor, do qual se conservou a estrutura, e as tábuas quinhentistas, e ao qual se acrescentou a tribuna com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, pintando-se a talha.
Os estudos sobre o retábulo primitivo têm revelado tratar-se de uma encomenda à oficina de Diogo Teixeira, parcialmente entregue a Belchior de Matos, que terá sido responsável pelas tábuas da fiada superior, onde são visíveis os problemas de desenho e a filiação nos modelos trado-maneiristas do seu mestre (SERRÃO, 1993, p. 91; IDEM, pp. 32-34). Por outro lado, é possível que a instalação de Belchior de Matos nas Caldas se deva a este trabalho, uma vez que em 1595 já se ocupava de outras obras na vila (IDEM).
Para além destas intervenções, há a registar, ainda, uma campanha de pintura mural, também na capela-mor, que envolve o arco triunfal, de volta perfeita, e onde se destacam os emblemas da Ordem Terceira, no tímpano do frontão triangular sobre o arco triunfal.
(Rosário Carvalho)