Nota Histórico-Artistica
Sagrada em 1241 (SERRÃO, 1990, p.58), a antiga Igreja de Santo Estêvão passou a designar-se Igreja do Santíssimo Milagre devido à lenda do Milagre de Santarém, ocorrido em 1247 (VASCONCELOS, 1740, I, p. 273) ou em 1266 (MATOSO, 1738) na paróquia de Santo Estêvão de Santarém, uma das mais importantes e abastadas da vila. Reza esta lenda que uma que uma mulher roubara uma hóstia consagrada durante a comunhão, pretendendo utilizá-la em práticas de bruxaria; porém, a hóstia sangrou durante todo o percurso, e uma vez escondida inundou de luz toda a habitação, revelando a sua presença e conduzindo a pecadora ao arrependimento. A hóstia milagrosa foi engastada em custódia de prata, e permanece guardada no templo até hoje, à excepção do curto período das Invasões Francesas, quando foi retirada de Santarém (SARMENTO, 1993, pp. 30-31).
Do primitivo edifício gótico mendicante restam apenas dois arcos apontados do transepto. A construção actual constitui "a peça mais aprimorada do renascimento em Santarém" (SERRÃO, 1990, p.58), e é resultado de uma campanha de obras de meados do século XVI, documentada entre 1536 e 1547 (SERRÃO, 1990, p.59), provavelmente motivada pela dimensão dos estragos causados no templo pelo sismo de 1531. A planta longitudinal, de três naves, define um espaço provavelmente mais amplo do que o templo original. A capela-mor, quadrangular, é antecedida por um curioso tramo perpendicular às naves, constando de três arcos redondos, provavelmente numa solução de "iconostase" em interpretação renascentista rara no país, e hoje de difícil legibilidade por via das posteriores alterações do espaço do transepto (SERRÃO, 1990, p. 60). A decoração desta estrutura porticada é particularmente bem conseguida, com pilares lavrados de finos grotescos, "tondi" com cabeças relevadas ao modo clássico, e as imagens de vulto representando São Pedro e São Paulo, assentes em mísulas e coroadas por baldaquinos.
À campanha renascentista, envolvendo certamente mestres locais fortemente influenciados pelos estaleiros tomarenses, sucedeu-se intervenções maneiristas e barrocas, seiscentistas e setecentistas, das quais resultou, para além do desvirtuamento de parte da obra quinhentista, todo o revestimento de azulejos polícromos, de padrão, das naves laterais e do transepto, bem como a execução da totalidade dos retábulos de talha, da primeira metade do século XVIII (CABRITA, 1996, p. 75), do coro, e de muita da imaginária que recheia o templo. Consta esta de várias telas do século XVII, lápides epigrafadas, algum bom mobiliário, e ainda quatro tábuas quinhentistas, tardias. SML