Nota Histórico-Artistica
A igreja de São João de Alporão constitui um caso único na arquitectura medieval portuguesa. Produto híbrido estilisticamente, aqui coexistem soluções filiadas em esquemas românicos e outras já nitidamente góticas, característica que confere a este templo um estatuto ímpar no panorama arquitectónico de Santarém e até do país, pelo elevado grau de experimentalismo, de "primeiro efeito de descontinuidade na arquitectura escalabitana" (PEREIRA, 1997, p.102) e, simultaneamente, de "primária ligação dos dois estilos" (SEQUEIRA, 1949, p.XVII).
A sua fundação deve-se à Ordem de São João do Hospital, cuja fixação na cidade situa-se entre 1159 e 1185 (CUSTÓDIO, 1994, p.17). No foral de 1179 pode depreender-se já a presença dos Hospitalários no território (BEIRANTE, 1980) mas, até ao momento, a data exacta de estabelecimento permanece desconhecida. A impossibilidade em relacionar a datação da igreja com a fixação dos Hospitalários tem favorecido a dispersão de datas propostas para a construção do templo, apesar de não restarem hoje grandes dúvidas sobre uma concepção inicialmente românica, datável das últimas décadas do século XII.
São vários os indicadores nesse sentido, desde a estrutura maciça da nave - que se filia no grupo de igrejas românicas de nave única do Douro Interior (RODRIGUES, 1995, p.213) - até à feição, em certa medida, tradicional do portal principal - com as suas arquivoltas em arco de volta perfeita -, passando ainda por outros aspectos, como a inutilidade estrutural dos contrafortes (SEQUEIRA, 1949, p.XVII; CUSTÓDIO e CUSTÓDIO, 1994, pp.88-93) ou o carácter fortificado de todo o conjunto, a que se adossava uma pesada torre circular, demolida em 1785 para permitir a passagem do coche real de D. Maria I.
Mas se estas características fazem da igreja de São João de Alporão um dos últimos testemunhos românicos do Sul, outros aspectos situam-na declaradamente no Gótico, como a cabeceira - de planta poligonal e com amplas janelas ogivais dispostas verticalmente entre contrafortes -, ou a primitiva cobertura dos três tramos da nave - de abóbada nervurada de cruzaria de ogivas -. A principal obra desta fase gótica é a galeria que se desenvolve para lá da capela-mor até ao limite exterior nascente da cabeceira. Trata-se da "primeira galeria gótica da arquitectura portuguesa" (PEREIRA, 1997, p.102), de função ainda discutida (provavelmente para permitir o acesso à torre românica), mas cuja qualidade não encontra paralelo no nosso país, sendo de admitir que consista em mais um exemplo da influência normanda no eixo Lisboa-Santarém-Coimbra, que se detecta desde a segunda metade do século XII (REAL, 1987, pp.554-555).
Perante esta heterogeneidade de elementos estilísticos, os principais autores que se referem ao templo de Alporão coincidem na existência de duas campanhas construtivas autónomas. Porque o projecto românico não foi concluído ou porque uma primitiva cobertura da nave, em abóbada de berço, desabou, o novo esforço edificador, para lá das evidentes transformações no abobadamento do corpo, optou por levantar uma cabeceira totalmente nova, mais consentânea com o partido estético dos promotores da obra e respectivos construtores, ambos provavelmente de origem francesa. Quanto à nave, ela segue um modelo de transição definido como a "Goticização" de modelos românicos tardios (PEREIRA, 1995, vol. I, p.358), produto final esse que não chegou até nós, pela acção da campanha gótica.
Depois de extintas as Ordens religiosas, a igreja serviu de teatro, até que em 1877 a Comissão administrativa do Museu Distrital de Santarém iniciou obras de restauro com vista à sua adaptação a Museu. Os trabalhos então efectuados, dirigidos por João Fagundo da Silva, revestiram-se de enorme preocupação pela ancestralidade do monumento, privilegiando mais aspectos de consolidação e menos de recriação. Ainda assim utilizou-se cimento hidráulico na abóbada e transformou-se o portal lateral em janelão (CUSTÓDIO, 1994, pp.67-68).
PAF