Nota Histórico-Artistica
O actual município da Amadora mereceu sempre uma atenção especial por parte dos pioneiros da Arqueologia portuguesa, constituindo, já no segundo quartel do século XX, uma das áreas de prospecção privilegiada do director do, já então, "Museu do Dr. José Leite de Vasconcellos", Manuel Heleno (1894-?).
A procura deste território por parte de diferentes comunidades ao longo de milénios seria facilmente explicada pela diversidade dos recursos cinegéticos que oferecia, de entre os quais a riqueza de linhas de água não seria, certamente, alheia.
Uma realidade que se reflectiu, por exemplo, em pleno Calcolítico, nomeadamente no respeitante ao megalitismo presente nesta zona, como testemunham as "Grutas artificiais do Tojal de Vila Chã ou Carenque", mais vulgarmente conhecidas por "Grutas de Carenque".
Na verdade, este exemplar reflectirá, no fundo, as alterações entretanto operadas no seio das comunidades humanas em pleno processo de consolidação do sistema agro-pastoril, surgindo, justamente nas penínsulas de Lisboa e Setúbal, "[...] um novo tipo de sepulcro destinado à inumação colectiva, cujas afinidades morfológicas mediterrânicas são bastante incisivas - as grutas artificiais ou "hipogeus"." (JORGE, S. O., 1990, p. 126), que teriam ampla utilização já durante o Calcolítico, num fenómeno de igual modo denominado de tholoi.
Constituída por três grutas artificiais abertas em calcários brandos da região [com paralelos observados nas grutas artificiais da Quinta do Anjo (Palmela), da Alapraia e de São Pedro do Estoril], a "Necrópole de Carenque" (como é também denominada) foi descoberta em 1932 por M. Heleno (vide supra) (Cf. HELENO, M., 1932), que logo promoveu a sua classificação como "Monumento Nacional", numa demonstração clara do ascendente que ia exercendo pessoalmente nos círculos políticos portugueses da época, ao mesmo tempo que do papel (ainda que limitado) paulatinamente auferido pelos organismos instituídos entre nós exclusivamente consagrados à Arqueologia a partir, precisamente, deste ano de 1932 (MIRANDA, J. A., 1994, p. 149).
As três grutas ostentam, como seria de esperar, uma disposição comum, a exemplo do corredor de acesso - efectuado por intermédio de um pequeno portal - à câmara funerária de planta sub-circular coroada por clarabóia talhada no topo do mesmo afloramento calcário e coberta (tal como o próprio corredor) por grandes lajes configuradas no mesmo material.
Para além de vestígios osteológicos humanos, foram recolhidos no local diversos exemplares cerâmicos associados às inumações, com destaque para as taças e copos canelados e taças campaniformes, a par de artefactos executados em osso, como agulhas e botões, para além de objectos líticos e metálicos, como nos casos de pontas de seta, lâmina e punhais, todos de carácter claramente utilitário (Do Paleolítico ao Romano, p. 41).
A par deste conjunto de materiais indicadores, de algum modo, das actividades desenvolvidas pelas comunidades que construíram e utilizaram estes sepulcros colectivos (JORGE, S. O., 1990, pp. 181-184) - mas cujos povoados correspondentes ainda não foram cabalmente identificados, apesar de algumas iniciativas levadas a efeito nesse sentido (ARNAUD, J. E. M., GAMITO, T. J., 1972, pp. 119-161) -, merecem especial realce todos quantos se inserem no universo "mágico-simbólico" destas populações, os mais frequentes dos quais serão, sem dúvida, os denominados "ídolos" de calcário, tanto lisos quanto decorados, assim como as representações de determinados utensílios, e exemplo da enxó, juntamente a exemplares das características placas de xisto e lúnulas, materiais megalíticos, por excelência, executados grosso modo entre os IV e III milénios a. C..
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