Nota Histórico-Artistica
A construção de uma Casa da Câmara de Guimarães foi um projecto acalentado por sucessivas vereações ao longo de toda a Idade Média. Ao que tudo indica, no início não existia qualquer lugar específico para as reuniões, dispersando-se os homens do concelho por adros de igreja, ou pelo claustro da igreja de Santa Maria. Um primeiro edifício, construído especificamente para esse fim, aconteceu em 1384, com grande probabilidade no local onde hoje se ergue o antigo paço municipal.
Este é um edifício singular, implantado em pleno centro nevrálgico da cidade, cujas características arquitectónicas marcam mesmo parte do imaginário medieval vimaranense. Trata-se, todavia, de uma construção integrável num restrito conjunto de edifícios municipais, característico de algumas vilas e cidades do Noroeste do país, em plena voga nos finais da Idade Média.
Com efeito, as semelhanças entre o edifício da Câmara de Guimarães e os de idêntica função de Barcelos e de Viana do Castelo não têm passado despercebidas (BARROCA, 2002, p.148) e permitem, mesmo, considerar a existência de um modelo de sucesso aplicado a estes monumentos durante grande parte do século XV e primeiros anos do século XVI.
Tipologicamente, organizam-se a dois andares, sendo o primeiro definido por uma longa arcada ogival (neste caso constituída por uma sucessão de quatro arcos), a toda a largura do edifício, cujo espaço interior, amplo e destituído de compartimentação arquitectónica, era reservado normalmente para o mercado, ou parte dele. O segundo andar, fechado por janelas (bastante adulteradas na época moderna - século XVII -, que lhe conferiram o aspecto actual), compunha-se de uma câmara única, salão de reuniões para os vereadores municipais e também para o tribunal.
Nos inícios do século XVI, na sequência de uma reforma parcial, o Paço municipal de Guimarães foi coroado por ameias, à semelhança do que então se fez com a construção de raiz do Paço de Viana do Castelo. Este facto é bastante importante, na medida em que se transpôs, para a arquitectura municipal, um dos elementos que até há escassas décadas era exclusivo da arquitectura militar. Por esta via, nobilitaram-se paços concelhios e outras edificações privadas, num processo particularmente interessante na arquitectura do reinado de D. Manuel, monarca que liberalizou o uso de merlões e de ameias (ALMEIDA, 2002, p.149).
Mais tarde, já no século XVIII, procedeu-se ao primeiro verdadeiro restauro do imóvel, campanha a cargo de "dez mestres pedreiros portuenses que trabalhavam nas obras (...) do mosteiro de Santa Rosa de Lima (OLIVEIRA, 1998). Do século XIX é a escultura ao centro da fachada principal, junto das ameias, uma representação proveniente do antigo edifício da alfândega, demolido em 1876. Já no século XX, teve lugar uma campanha de restauro, da responsabilidade da DGEMN, que dotou o imóvel de funcionalidade pública, nele se instalando sucessivamente o Arquivo Municipal, a Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian e o actual Museu de Arte Primitiva Moderna.
PAF