Nota Histórico-Artistica
É no centro da cidade de Chaves, sobre o rio Tâmega, que a percorre parcialmente, que se ergue uma ponte construída durante o processo de romanização desta região do território nacional. Na verdade, terá sido no ano de 104 d. C., em plena vigência (98-117) do imperador romano Marco Ulpio Trajano (c. 53-117), que se concluiu a primeira das duas colunas comemorativas aí existentes, dando início à edificação da futura ponte, num acto perfeitamente contextualizável do ponto de vista histórico. Com efeito, apesar de manter-se num estado de quase permanente campanha militar, o Império de Trajano primou pela condução de uma série de reformas administrativas, a par de construções de carácter público, como vias, canais e pontes, absolutamente essenciais ao sucesso que pretendia alcançar com a sua principal política de conquista e manutenção dos territórios entretanto alcançados. E, à época, Aqua Flaviae ocupava um lugar de destaque no sistema administrativo romano, designadamente depois que o reinado dos Flávios (69 a 96 d. C.) lhe conferiu o estatuto municipal, deixando para trás o de oppidum Aquae Laiae. Foi, decerto, no seguimento desta sua nova condição que a cidade assistiu à edificação de múltiplas estruturas de funcionalidade pública, como nos casos das várias vias que conduziam ao seu centro e do próprio complexo termal, em torno do qual se estruturou a essência da malha urbanística romana, e das quais ainda remanescem abundantes vestígios, a exemplo da ponte em epígrafe, que, segundo alguns autores (PINTO, Paulo Mendes, Pontes romanas de Portugal, pp. pp. 70-71), integraria parte de uma via rasgada ainda no tempo de Augusto, que ligava Bracara Augusta a Asturica.
E, tal como sucedia noutras situações similares, Trajano terá custeado pessoalmente a edificação pétrea da ponte flaviense. O imóvel foi, no entanto, objecto de algumas remodelações ao longo dos séculos posteriores, tendo sido destruída parcialmente por uma cheia ocorrida no século XVI. Após algumas intervenções realizadas com vista à reconstrução e manutenção da ponte, quer logo em quinhentos, quer no século XIX e, sobretudo, já na centúria de XX, o imóvel acabaria por, na generalidade, conservar as características originais, bem patentes no próprio aparelho construtivo utilizado. E apesar de D. Jerónimo Contador de Argote (1676-1749) se referir à ponte como possuindo dezasseis arcos de volta perfeita, com cerca de 152 m de comprimento, o facto é que, no século XVIII, alguns deles já se encontrariam soterrados, sendo actualmente visíveis apenas doze, embora alguns entaipados, numa extensão máxima de aproximadamente 100 m (Ibid.). Quanto aos quebra-rios, eles apresentam-se ligeiramente escalonados, característica presente em diversas pontes localizadas acima do Douro.
Relativamente às duas colunas atribuídas aos imperadores Titus Flavius Vespasianus (c. 9-79) e Trajano, localizadas sensivelmente a meio do tabuleiro, é plausível que proviessem de outro local, nomeadamente de umas das extremidades da própria ponte. Revestem-se, todavia, de uma importância acrescida em virtude de datarem o monumento, em si, e ostentarem referências únicas relativas às comunidades envolvidas na sua edificação, dados fundamentais para um melhor entendimento da designação dos povos que habitaram a Lusitânia (Id., Ibid., pp. 71-72). Entretanto, durante a prospecção arqueológica conduzida em 2001, no âmbito do projecto de remodelação do centro histórico da cidade, foi descoberto um troço de cinquenta metros de calçada romana na actual Rua Cândido dos Reis, de acesso à ponte.
[AMartins]
Diploma de Classificação
Decreto n.º 28 536, DG, I Série, n.º 66, de 22-03-1938 (classificou a Ponte romana e as duas colunas comemorativas nela colocadas, do tempo dos imperadores Vespasiano e Trajano) (ver Decreto)
Decreto de 16-06-1910, DG, n.º 136, de 23-06-1910 (classificou a Ponte de Trajano) (ver Decreto)