Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Localizada perto do Rio Sado, no centro de Alcácer do Sal, a Igreja da Misericórdia é um edifício de planta retangular, que se desenvolve num plano perpendicular em relação à via, ao qual se adossam os edifícios do hospital, lateralmente, e os anexos da irmandade, no tardoz, que formam um corpo em L.
O templo, que resulta de distintas campanhas de obras, apresenta uma fachada principal heterogénea que, embora mantenha a estrutura maneirista, apresenta elementos barrocos, originários da obra do século XVIII. Ladeada por dois contrafortes, o frontispício é precedido por um conjunto de degraus, apresentando-se dividido em três registos. No piso térreo foi rasgado ao centro o portal de moldura retangular, com pilastras e frontão de aletas, no qual foi inserido o escudo nacional. No eixo do portal foram abertas duas janelas, correspondentes a cada um dos registos superiores, executadas na campanha de obras setecentista. Na fachada lateral ergue-se um portal manuelino, de moldura retangular, com verga polilobada.
A disposição interna é característica dos templos de Misericórdia quinhentistas e seiscentistas, apresentando o interior como um espaço único, com a nave e a capela-mor diferenciadas apenas pela elevação do pavimento.
A igreja foi profundamente alterada no século XVIII, numa campanha de obras em que se executou um programa decorativo de gosto rococó, visível nos altares de talha polícroma, quer laterais, quer no retábulo-mor, ou na guarda do coro-alto. Os silhares de azulejo polícromo seiscentistas foram mantidos, decorando toda a extensão da nave.
A abóbada de berço que cobre o espaço da nave foi pintada nos finais de Oitocentos, exibindo representações da Virtudes, da Fé, da Esperança e da Caridade. As paredes laterais, com medalhões de estuque neoclássicos, foram também pintadas, com símbolos da Eucaristia e bustos dos Evangelistas.
História
A Misericórdia de Alcácer do Sal foi fundada em 1530 por D. Rui Salema, criado da Casa do Infante D. Luís, prior do Crato, e proprietário do Solar dos Salemas no centro da vila. Em 1547 era edificado o hospital contíguo, com a respetiva farmácia.
A igreja terá sido edificada nos cerca de quinze anos que distanciam estas duas datas, datando do templo primitivo o portal principal, um elegante exemplar do renascimento regional. O portal manuelino que se ergue na fachada lateral deverá ter sido aproveitado de outro edifício anterior, possivelmente destruído na época.
Na segunda metade do século XVII era executada nova obra, devendo datar desta campanha os azulejos do silhar da nave. Algumas décadas depois, já na centúria de Setecentos, seria reformada a fachada principal, atendendo aos elementos decorativos da janela, já de gosto barroco. Da mesma época datará também a talha dos retábulos, o coro-alto e o púlpito. Cerca de 1895, o pintor setubalense Flamengo executava as pinturas da abóbada e os estuques.
Catarina Oliveira
DGPC, 2018