Nota Histórico-Artistica
No século XIV, a vila de Aldeia Galega teria como matriz a ermida de São Sebastião, que é apontada por diversos autores como a mais antiga igreja do Montijo. No entanto, o crescimento populacional impôs a construção de uma nova igreja, de maiores dimensões e mais central, pelo que no final do século XV e início do século XVI se deu início às obras da Igreja Matriz do Espírito Santo (QUARESMA, 1948, p. 60).
A invocação a São Sebastião compreende-se pela tradição dos agricultores e fazendeiros de Aldeia Galega, que viam neste santo um intercessor privilegiado contra as pestes. O seu culto revelou-se um dos mais importantes nesta localidade, por oposição a São Pedro, venerado pelos pescadores. Há mesmo notícia de uma Confraria de São Sebastião, que mandava celebrar missa cantada em louvor deste santo, no dia que lhe era dedicado.
O conhecimento de parte da história desta ermida, devemo-lo às Visitações efectuadas pela Ordem de Santiago, que muito embora não refiram as campanhas de obras estruturais, permitem-nos perceber a evolução do espaço, até ao século XVII, que se pautou, desde sempre, por uma forte austeridade.
Inicialmente, e segundo a Visitação efectuada em 1525 (RAMA, 1906, p. 124), a ermida tinha paredes de pedra e cal, tijolo no pavimento e cobertura de madeira de castanho com telha vã. O altar principal seria de alvenaria, exibindo a imagem de São Sebastião, em madeira pintada, com as tradicionais setas. Por cima, erguia-se uma cortina de linho, com franja, metade verde e metade vermelha. Existiriam ainda dois outros altares laterais dedicados à Cruz e a Nossa Senhora, com imagens de dimensões muito reduzidas.
Mais tarde, o altar-mor foi revestido com azulejos, e os outros dois altares foram executados ou reedificados por Fernão Roiz, sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade e de Santo António (CMM, Ficha de Inventário, 1989).
A Visitação de 1609 (RAMA, 1906, pp. 122-123) exigiu a realização de um retábulo pintado e dourado para o altar-mor, e o derrube dos altares travessos, por se encontrarem danificados e não haver local onde pudessem ser restaurados. Deu-se ordem, ainda, para que algumas imagens fossem enterradas, por se encontrarem deformadas, facto que aconteceu em Maio do mesmo ano (QUARESMA, p. 60). De facto, não se encontram, actualmente, vestígios destes altares.
Despojada da sua função de matriz, a ermida de São Sebastião conservou-se, estando adossada ao cemitério, desde 1844, e integrada num conjunto de habitações que não lhe oferece grande destaque. Parte da sua estrutura medieval manteve-se, subsistindo vestígios ao nível da cabeceira - o arco triunfal, apresenta colunas torsas lavradas com botões de efeitos geométricos. No pano fundeiro da capela, rematada por abóbada de berço, rasga-se uma arcada falsa de arco pleno.
Todavia, a traça arquitectónica que hoje observamos, de características maneiristas chãs, de linguagem clássica aplicada à estrutura austera e sóbria, deverá corresponder à campanha ocorrida na segunda metade do século XVI. A fachada, rematada por empena angular em cornija e encimada por óculo quadrilobado, reflecte a mesma linguagem seiscentista, plena de austeridade, exibindo, ao centro, um portal de moldura recta com cornija, flanqueado por duas janelas pequenas, molduradas e gradeadas.
(Rosário Carvalho)