Nota Histórico-Artistica
Única estação arqueológica romana escavada até à data no concelho, a "Villa romana de Rio Maior" sobressai pela presença de um número considerável de mosaicos romanos relativamente bem conservados.
Descoberta em 1983 pelo "Sector de Museus, Património Histórico, Arqueológico e Cultural" da Câmara Municipal de Rio Maior, o sítio foi apenas objecto de investigação no início da década seguinte, altura em que se abriu uma vala de sondagem, ocorrendo a primeira escavação arqueológica sistemática em 1995 (Cf.. MOREIRA, J. B., 1995), por solicitação do IPPAR, que a prolongou até 1999 (OLIVEIRA, C. F. de, 2003, P. 17).
Pertencendo, do ponto de vista administrativo, à civitas de Scallabis (Santarém), constituindo uma das múltiplas unidades político-administrativas romanas (as mais vulgares, na realidade), aproximadas, no que à área abrangida se referia, aos actuais distritos, centralizadas em torno de uma capital, à qual se subordinavam outras unidades urbanas e a respectiva população rural, com a particularidade de Scallabis ter assumido, em simultâneo, o papel de Conventus, circunscrição administrativa que congregava um determinado número de cidades.
Os trabalhos conduzidos ao longo da segunda metade dos anos noventa (vide supra) colocaram a descoberto uma área total de 772m2, correspondendo grosso modo à pars urbana, ou seja, à área habitacional dos proprietários, embora o espólio recolhido não se revelasse propriamente abundante, permitindo, contudo, a sua atribuição ao Baixo-Império. Foram os casos, em particular, de fragmentos de terra sigillata hispânica e africana tardias, conjuntamente a numismas e pequenas peças realizadas em bronze e parcelas de estatuária (Id., Idem, pp. 17-21).
Uma presença que nos poderá dizer algo mais, nomeadamente acerca da inserção deste sítio, obviamente em época romana, num modelo de circulação alargada de determinados produtos, os quais, como no caso desta louça fina, de mesa, não chegaram a ser fabricados no actual solo português. Cerâmica importada, por excelência, a presença de terra sigillata demonstra bem como o povoado desfrutava, à época, de uma economia aberta, certamente proporcionada pelas vias naturais (mas não só) de circulação, assim como pelo poder económico fruído pelas gentes que então o ocuparam.
Em relação ao edifício, a "[...] estrutura da sua construção define-se através dos seus negativos entre os pavimentos de mosaicos." (Id., Idem, p. 21) presentes em todos os compartimentos identificados até ao momento. Dependências estas que também ostentavam estuques pintados de fraca qualidade, embora compensando, de alguma forma, a relativa pobreza construtiva do conjunto, uma vez que foi de igual modo escavado um tanque preenchido com entulho, isto é, com fragmentos de "[...] cerâmica comum, estuque pintado, escória de vidro, cavilhas [...] e peças em ferro [...], tesselas de vidro, fragmentos de placas [...]." (Id., Idem, p. 23)
As realidades materiais configurarão, assim, um exemplar das denominadas "villae fechadas", "[...] cujos longos corredores, porticados ou não, marcam a fachada do edifício." (Id., Idem, p. 25), enquanto o compartimento circular, com ca de doze metros de diâmetro, confere uma inegável singularidade ao edifício, embora sem indícios esclarecedores da sua utilização primeva, conquanto seja possível que se destinasse a actividades sociais e de lazer.
Agrupados em dois grandes conjuntos de materiais/cores, ou seja, entre os calcários e os vidros, os mosaicos desta villa distinguem-se pela heterogeneidade "[...] da gramática decorativa, fruto de uma encomenda que nos parece pouco coerente. Não se trata de uma produção com grande qualidade técnica, nem muito original no programa decorativo." (Id., Idem, p. 153), posto que expressem influências norte-africanas e orientalizantes.
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