Nota Histórico-Artistica
Pertença do cabido lisboeta desde o século XII, a vasta propriedade de Marvila foi, mais tarde, dividida em parcelas que deram origem, no século XV, a diferentes quintas, uma das quais a da Mitra (MARTINS, 2004, p. 16). Sobre a propriedade, sabe-se que poderá ter sido utilizada como quinta de veraneio, por beneficiar dos bons ares que aí se respiravam devido à proximidade do Tejo e ao afastamento da cidade. Ao que tudo indica, o Arcebispo D. Luís de Sousa construiu uma casa solarenga, mas foi com o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, que o palácio conheceu um novo impulso.
São muitas as interrogações que ainda se colocam sobre as intervenções patrocinadas por este prelado e sobre a identidade dos arquitectos e artistas que aí trabalharam, mas do que não há dúvida é que D. Tomás de Almeida transformou o que era um palácio residencial na sede do patriarcado (IDEM, p. 25). Se alguns autores apontam o ano de 1716 para o início das obras, outros preferem uma cronologia mais adiantada (1727-32) e, consequentemente, coeva dos trabalhos realizados no Palácio de Santo Antão do Tojal, em relação ao qual encontram ainda muitas semelhanças. É por esta via que o nome de António Canevari, arquitecto italiano que permaneceu em Portugal de 1727 a 1732 trabalhando para D. João V e para o Cardeal Patriarca, nomeadamente em Santo Antão do Tojal. Certo é que o palácio estava concluído em 1744, quando D. Tomás de Almeida ofereceu um banquete no palácio ao Núncio Apostólico, o Eminentíssimo Cardeal Odi (IDEM, p. 27). Para além de Canevari, aponta-se ainda o nome do húngaro Carlos Mardel ou o capitão Rodrigo Franco como eventuais participantes neste projecto.
Muito embora o palácio tenha sido objecto de múltiplas intervenções que alteraram o traçado setecentista, o edifício pauta-se ainda hoje por uma grande depuração e austeridade. Na fachada, caracterizada pela simetria na abertura dos vãos, a entrada para o pátio é feita por dois portões, com a gradaria original onde ainda se observam as armas de D. Tomás. Note-se que, nesta época, a propriedade beneficiava de um cais privativo ladeado de obeliscos.
A fachada do pátio é marcada pela escadaria de dois lanços com uma fonte e carranca ao centro. O palácio, de dois andares, apresenta uma planimetria interna algo confusa, certamente fruto do aproveitamento das estruturas anteriores. Merece especial destaque a escadaria nobre, que se bifurca a partir do primeiro patamar para se unir no último lanço, onde é protegida por balaustrada de mármore que os azulejos dos panos murários, a azul e branco, procuram imitar, sobre uma paisagem fundeira. A azulejaria é, aliás, uma das características destes interiores, com painéis alusivos a paisagens e cenas de caça, próprios da fase joanina final, parte dos quais têm vindo a ser atribuídos à dupla Bartolomeu Antunes / Nicolau de Freitas. Esta atribuição necessita, no entanto, de uma nova leitura face aos dados recentemente divulgados sobre as actividades de Bartolomeu Antunes (cf. MANGUCCI, 2003). Nas salas há a assinalar, ainda, os tectos de masseira, alguns dos quais com as armas do Cardeal Patriarca pintadas ao centro. A capela, de planta elíptica, foi destruída na década de 1930, mas subsistem imagens a revelar o retábulo de influência italiana e a abóbada de estuques, atribuídos a Grossi. Os seus painéis de azulejo conservam-se no Museu da Cidade. Uma referência final ao jardim em terraço, ao nível do andar nobre, organizado à francesa, e para o qual se abre uma das fachadas com revestimento azulejar.
Em 1864 os prelados abandonaram o palácio levando consigo e dispersando muito do seu recheio artístico. Vendido nesse ano, passou por vários proprietários até ser adquirido pela autarquia em 1930 que instalou o Asilo da Mendicidade (1933) e a Biblioteca (1934), cuja adaptação originou muitas alterações, a principal das quais a destruição da capela. Em 1941 recebeu o Museu da cidade, que aí permaneceu até à década de 1970.
(RC)
Diploma de Classificação
Portaria n.º 455/2012, DR, 2.ª série, n.º 181, de 18-09-2012 (ver Portaria)
Relatório final do procedimento de 27-01-2012
Procedimento prorrogado até 31-12-2012 pelo Decreto-Lei n.º 115/2011, DR, 1.ª série, n.º 232, de 5-12-2011 (ver Diploma)
Anúncio n.º 17891/2011, DR, 2.ª série, n.º 231, de 2-12-2011 (ver Anúncio)
Procedimento prorrogado pelo Despacho n.º 19338/2010, DR, 2.ª série, n.º 252, de 30-12-2010 (ver Despacho)
Despacho de concordância de 8-11-2007 do presidente do IGESPAR, I.P.
Parecer favorável de 31-10-2007 do Conselho Consultivo do IGESPAR, I.P.
Proposta de 16-03-2007 da DR de Lisboa do IPPAR para a classificação como IIP
Edital N.º 69/2006 de 26-09-2006 da CM de Lisboa
Despacho de abertura de 3-08-2006 da vice-presidente do IPPAR
Proposta de 21-07-2006 da DR de Lisboa do IPPAR para a abertura da instrução de processo de classificação
Parecer favorável de 14-11-1995 da CM de Lisboa
Proposta de classificação de 4-08-1995 da URBE
Número do Processo
Não disponível