Nota Histórico-Artistica
A igreja de São João Evangelista de Alfange, pela posição periférica que ocupa em relação ao núcleo monumental principal de Santarém, permanece como um dos mais desconhecidos templos da cidade. A sua importância no contexto da arte medieval nacional, todavia, tem vindo a ser evidenciada por alguns autores, que identificaram nesta igreja importantes vestígios artísticos de épocas anteriores ao ciclo gótico da cidade.
Em pleno período muçulmano, uma comunidade moçárabe aqui residente foi responsável pela construção do templo, ou remodelação de um ainda mais antigo. A placa descoberta em 1971, e recolhida no Museu Distrital de Santarém - provavelmente um fragmento de cancela de altar (CUSTÓDIO, 1996, p.214) -, revela interessantes analogias com outras placas moçárabes identificadas em Lisboa (actualmente expostas nos Museus da Cidade e Arqueológico do Carmo, ambos na capital), ou criadas a partir de uma oficina escultórica lisboeta, pela originalidade e rigor do traçado geométrico da sua decoração.
No século XII, após a conquista de Santarém pelo exército de D. Afonso Henriques, a comunidade cristã do Alfange procedeu a uma ampla renovação deste espaço religioso. A igreja então construída, estilisticamente filiada no Românico meridional entre Coimbra e Lisboa, apresentava uma estrutura ambiciosa, a confirmar-se a sugestão de organização interna em três naves dada pelo "plinto de coluna em que assentava o primeiro arco longitudinal, entre a nave central e a colateral norte" (REAL, 1987, p.542). A capela-mor ainda está intacta e por ela podemos observar o grau de proximidade que une os capitéis do arco triunfal a outros produzidos em Lisboa, "com as características folhas espalmadas (...) e os enrolamentos folicolares " (REAL, 1987, p.542) .
Ao longo dos tempos a igreja foi objecto de sucessivas actualizações. Na Sacristia, conservam-se fragmentos datáveis dos séculos XIV a XVI, peças que testemunham a constante atenção dada a este templo durante o período de apogeu da cidade. Nos anos que se seguiram à restauração da independência e à aclamação de D. João IV, a igreja foi revestida de azulejos de tipo tapete, análogos aos que revestem as paredes da igreja de Santa Maria de Marvila. A campanha artística então efectuada estendeu-se também aos altares de talha, a um cadeiral que até há pouco existiu numa dependência anexa, e à construção da própria sacristia (CUSTÓDIO, 1996, p.215).
Aquando do terramoto de 1755 ruíram partes importantes do monumento, factos que determinaram uma nova campanha construtiva. As obras então efectuadas arrastaram-se por mais de quarenta anos e só se concluíram em 1802, data gravada no lintel do portal principal, juntamente o escudo nacional. Até 1940 o espaço foi utilizado pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, mas a sua extinção acentuou o processo de ruína que dura até hoje.
Não obstante a importância dos vestígios moçárabes e românicos identificados, e as respostas que uma intervenção arqueológica poderá trazer à própria história da cidade de Santarém, especialmente em relação à quase ausência de testemunhos artísticos da segunda metade do século XII, a igreja de São João Evangelista de Monsanto de Alfange permanece como uma ruína prestes a desagregar-se. Em 1942, Zeferino Sarmento clamava já pelo seu restauro (SARMENTO, 1942, republ. 1993, pp.156-157) e não têm sido poucas as vozes que pugnam por este propósito.
Em 1978 efectuou-se uma primeira intervenção arqueológica, que se resumiu a "um reconhecimento do solo" (CUSTÓDIO, 1994 (1992), p.238). Mais recentemente, em 1995, a DGEMN procedeu à recuperação das monumentais escadarias que ligam a igreja ao núcleo habitacional do bairro (CANAS, 1996, pp.84-85), primeiro passo que, a ser consertado com uma estratégia arqueológica para o local (que conta com uma primeira abordagem de Maria Ramalho, realizada entre Janeiro e Março de 1997 (RAMALHO, 1998, policopiado)), permitirá reabilitar finalmente o monumento.
PAF
Diploma de Classificação
Anúncio n.º 208/2023, DR, 2.ª série, n.º 194, de 6-10-2023 (ver Anúncio)
Despacho de 22-06-2023 do diretor-geral da DGPC a determinar a abertura do procedimento de classificação de âmbito nacional
Proposta de 8-02-2023 da SPAA do Conselho Nacional de Cultura para o não arquivamento do processo
Proposta de 9-07-2015 do Departamento dos Bens Culturais da DGPC para o processo ser enviado à SPAA do Conselho Nacional de Cultura para parecer sobre a abertura de procedimento de classificação de âmbito nacional da Igreja de São João Evangelista de Alfange, adro e escadaria
Procedimento caducado nos termos do artigo 78.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, DR, 1.ª série, N.º 206 de 23-10-2009 href="http://dre.pt/pdf1sdip/2009/10/20600/0797507987.pdf">(ver Diploma)
Proposta de 25-06-2010 da DRC de Lisboa e Vale do Tejo para a classificação como CIP
Despacho de homologação de 3-08-1990 do Secretário de Estado da Cultura
Parecer de 28-06-1990 da 9.ª Secção do Conselho Consultivo do IPPC a propor a classificação como VC
Processo iniciado em 1983 (Igreja de São João Evangelista de Alfange)
Número do Processo
Não disponível