Nota Histórico-Artistica
A construção do Castelo de Borba, localizado em zona de grande importância estratégica para as defesas das fronteiras nacionais ao longo do século XIII, arranca possivelmente pouco após a conquista cristã do local durante o reinado de D. Afonso II, em 1217, ainda que de forma muito incipiente. A conquista deste território, bem como de outros no Sul do país, incluindo Alcácer do Sal, Vieiros, Monforte, Vila Viçosa e, possivelmente, Moura, deveu-se à iniciativa privada, e neste caso particular a Fernão Anes, mestre da Ordem Militar de S. Bento de Avis, antiga Milícia dos Freires de Évora, à qual foi entregue a administração de Borba. O povoamento em larga escala da vila não se terá seguido imediatamente à Reconquista, como aliás acontecia com várias localidades da região, até porque a sede da Ordem de São Bento era então o Castelo de Avis, justamente erguido por Fernão Anes; é provável que tenha arrancado mais ou menos a par das tentativas régias (de D. Sancho II) para ocupar definitivamente e povoar a povoação fronteiriça de Elvas, entre 1226 e 1229.
Porém, a muralha que hoje podemos ver é já atribuível ao impulso dado pelo rei D. Dinis, a partir de 1302, data da concessão do primeiro foral a Borba, assim estabelecida em concelho e integrada na linha defensiva do território. As estruturas que já pudessem existir foram então intervencionadas, sendo a obra da fortificação entregue a mestres Diogo (ou Domingos) Salvador e Rodrigo Fernão (ou Fernandes), nomes que figuram numa inscrição epigrafada no monumento. Foi construída uma cerca quadrada, com muros grossos, envolvida por um fosso que, com o tempo, viria a ser integrado no casario envolvente. Um largo adarve, ou caminho de ronda, guarnecido com um parapeito ameiado, corria no topo das muralhas. Estas eram rasgadas por (pelo menos) duas largas portas, conhecidas por Porta do Celeiro e Porta de Estremoz, defendidas por torreões (no primeiro caso) e grandes cubelos de secção semicircular (no segundo caso), também coroados com merlões. Para além destas, outras portas de menor importância estão hoje obstruídas, como a Porta do Sino, entre a Torre de Menagem e a Torre do Relógio, a Porta da Torre, ou a Porta do Sol, esta diante do Rossio de Baixo, ou das Casas Novas (ESPANCA, Túlio, 1966). No perímetro da muralha, encaixada no vértice a Noroeste, sobressai a Torre de Menagem, relativamente baixa mas larga e imponente, que veio a albergar a Cadeia da comarca, já no século XVII. É interessante notar o aparelho de reforço dos cunhais, com lajes em mármore da região.
Para além da Torre e das portas já mencionadas, restam ainda alguns troços da muralha, quase sempre envolvidas ou integradas no casario. Para além do natural desenvolvimento da povoação, que em tempos mais estáveis e pacíficos se fez com o sacrifício da muralha, também algumas obras públicas - caso da construção dos Paços do Concelho, junto à muralha oriental, em finais do século XVIII - contribuíram para a demolição dos paramentos. Dos que restam, destaca-se o extenso paramento a Ocidente, junto da Porta de Estremoz, que corre liberta de edifícios envolventes. Na porta está embutida uma inscrição do século XIV, em caracteres góticos, alusiva às obras dionisinas, onde se nomeiam os mestres de obras acima referidos: Rodrigues Fernão (RRO: FERNAM) surge como autor das portas fortificadas, e Domingos Salvador (D: SALUADORIZ) como o possível arquitecto do conjunto. Como curiosidade, note-se o gravado do barbo, um peixe abundante na região, remetendo para a lenda de fundação de Borba. De referir ainda que na Porta do Celeiro, a Sul, esteve embutida uma outra lápide, esta muito mais antiga, latina, e certamente vestígio da ocupação romana do local, dedicada a Júlio César, conforme notícia de Frei Agostinho de Santa Maria (Santuário Mariano, 1707-1718). SML