Nota Histórico-Artistica
A história do Hospital de Abrantes, instituído sob a invocação de São Salvador, encontra-se indissociavelmente ligada à história da Misericórdia local, mas apenas desde 1532. Isto porque a sua fundação é anterior cerca de 50 anos, período em que o hospital funcionou como estrutura autónoma, enquadrada no sistema assistencial de Abrantes, que chegou mesmo a tutelar.
Os dados relativos ao Hospital são relativamente escassos, e a cronologia dos seus primeiros anos baseiam-se na documentação que se encontra no Arquivo da Santa Casa, divulgada por António Soares de Sousa, no seu estudo sobre a Santa Casa da Misericórdia de Abrantes nos séculos XVI e XVII. Nesta medida, são os documentos do século XVIII que nos informam que D. Lopo de Almeida, Senhor de Abrantes, e sua mulher, D. Brites da Silva, doaram o celeiro dos Alcaides-mores da vila, para que nesse local se erguesse o hospital, o que terá acontecido no ano de 1483 (SOUSA, 1966, p. 62). Por seu turno, e com a autorização de D. João II, o celeiro foi transferido para outro sítio.
D. Lopo dirigiu a instituição até à data da sua morte, em 1486 (o seu túmulo encontra-se na igeja de Santa Maria do Castelo), sucedendo-lhe o seu filho, e seu neto (SOUSA, 1966, p. 62).
Através de um outro documento com data de 1488, percebemos que o Hospital do Salvador não era a única unidade de assistência existente em Abrantes. Pelo contrário, a proximidade ao rio Tejo, o facto de ser local de passagem, e o crescimento que se começava a fazer sentir (e que atingiu pleno desenvolvimento no século XVI), deverá ajudar a explicar que, no ano referido, D. João II ordenasse que todos os hospitais da vila fossem anexados ao do Salvador (SOUSA, 1966, p. 62).
Mais tarde, em 1532, e no quadro de uma política de centralização e uniformização da assistência, o Hospital foi anexado à Misericórdia, por alvará de D. Fernando (então Senhor de Abrantes). Contudo, a ligação entre ambas as instituições parece ser mais próxima, pois de acordo com um códice do século XVIII, o Infante D. Luís cedeu à Irmandade, em 1529, a igreja de São Julião, porque esta permanecia nas casas do hospital. Mas a referida igreja nunca foi ocupada, e o templo da Misericórdia acabou por ser erguido, precisamente, junto ao hospício.
Assim, os edifícios correspondentes ao hospital situam-se junto à fachada lateral da igreja, definindo um pátio no seu interior. Por sua vez, o Cartório e a Sala do Definitório sobrepõem-se a uma das sacristias. Esta última dependência ganha maior destaque por manter o revestimento azulejar, do século XVIII, representando sete Obras de Misericórdia. O ciclo azulejar integra-se na denominada Grande Produção Joanina, denotando já algumas características rococós. Neste espaço, celebravam-se as reuniões da Irmandade, subsistindo ainda a mesa e bancos de formato circular, de época setecentista. No pátio interior, destaca-se a cisterna, com armação de ferro forjado, que poderá remontar a finais do século XVI.
O hospital manteve-se na dependência da Misericórdia até aos nossos dias, apenas com um período de intervalo, pois foi nacionalizado após o 25 de Abril, e devolvido a esta instituição apenas em 1984.
Actualmente, a igreja encontra-se na dependência da Santa Casa, funcionando no antigo hospital um Centro de Dia e de Apoio Domiciliário. Esta adaptação, ocorrida a partir de 1984, conduziu à descoberta do antigo celeiro real, cuja área foi alvo de uma campanha arqueológica. Encontraram-se cerca de 32 talhas, a maioria das quais em bom estado de conservação, dispostas em filas e separadas em dois grupos, de forma a facilitar o acesso a cada uma delas. Parte deste conjunto foi mantido à vista, e a restante assinalada, de forma a poder ser devidamente identificada.
Rosário Carvalho
Diploma de Classificação
(ver ficha 75042, "Igreja da Misericórdia de Abrantes, pátio do Definitório, Casa do Despacho e claustro anexo, incluindo o património imóvel ntegrado" - fusão e ampliação das 3 classificações anteriores)
Decreto n.º 129/77, DR, I Série, n.º 226, de 29-09-1977 (ver Decreto)
Edital de 2-01-1976 da CM de Abrantes
Despacho de homologação de 18-03-1975 do Secretário de Estado da Cultura e Educação Permanente
Parecer favorável de 7-03-1975 da 4.ª Subsecção da 2.ª Secção da JNE
Proposta do delegado da JNE no concelho para a classificação como IIP