Nota Histórico-Artistica
Ainda que se pense ter sido fundada no ano de 1504 (GOODOLPHIN, 1897; CORREIA, 1944, p. 582), a Misericórdia de Abrantes surge referenciada na documentação apenas em 1516, o que comprova a existência da instituição, com certeza, nesse ano.
O hospital teve origem no celeiro real existente na cidade, que foi doado por D. João III a D. Lopo de Almeida, em 1483, para esse fim, estando concluída a sua construção no ano de 1488. Foi anexado à Misericórdia em 21 de Março de 1532, através de um alvará de D. Fernando, então Senhor de Abrantes (SOARES DE SOUSA, 1966, p. 64).
Esta reordenação administrativa integrou-se num programa mais vasto de centralização régia da beneficência pública e de uniformização da assistência, que se verificou um pouco por todo o país desde a segunda metade do século XV (CAETANO, 1995, pp. 14-51). A arquitectura e decoração dos edifícios que albergariam as referidas instituições, revestia-se da maior importância, e Abrantes não foi, com certeza, uma excepção (CAETANO, 1995, pp. 14-51).
A crer num códice do século XVIII, em 1529, o Infante D. Luís havia cedido a Igreja de S. Julião à Irmandade, porque esta permanecia nas casas do hospital. No entanto, "(...) foram-se deixando ficar na mesma Casa do Hospital e junto dela fundaram a Igreja, que tudo se foi ampliando e é nobre desta vila" (SOARES DE SOUSA, 1966, p. 70). Trata-se, portanto, da igreja que hoje conhecemos, cuja construção deveria ter ocorrido entre os anos de 1529 e 1548. Esta última data encontra-se inscrita numa das cartelas do portal lateral, com a indicação "Gaspar Dinis a fez". Todavia, todo o conjunto foi alvo da actualização estética barroca, responsável por alterações essencialmente decorativas.
A igreja, de características maneiristas, desenvolve-se em planta rectangular, de nave única. O Cartório e a Sala do Definitório sobrepõem-se a uma das sacristias. Os edifícios que corresponderiam ao antigo hospital encontram-se adossados à fachada lateral direita do templo, definindo o claustro. A fachada principal é rematada por um frontão triangular, e o pórtico, de linhas rectas, é encimado por uma janela. Destaca-se o alçado lateral, seccionado por pilastras, com um portal de volta perfeita, de linguagem quinhentista, onde se exibe a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, num medalhão central.
No interior, muito modificado na época barroca, sobressaem as pinturas que formavam o antigo retábulo quinhentista, atribuído ao denominado Mestre de Abrantes, e que foi substituído pelo actual, barroco, em 1728 (SERRÃO, 1992, p. 158). Estas tábuas, que actualmente podem ser observadas nas paredes da nave, representam diferentes episódios da vida da Virgem e de Cristo, tendo sido executadas em meados do século XVI por um pintor, cuja linguagem pictórica, inquieta e de coloração fria, se aproxima fortemente da obra do pintor régio Gregório Lopes.
O retábulo barroco, de estilo nacional, é muito semelhante às molduras das referidas pinturas, encaixilhadas nesta mesma época. O silhar de azulejos remonta já ao século XIX. Salienta-se, ainda, o púlpito de meados do século XVI, os altares laterais com telas do século XVII, do pintor abrantino Manuel Henriques, e o coro alto que comporta o órgão, de armário.
Actualmente, a igreja encontra-se na dependência da Santa Casa, funcionando no antigo hospital um Centro de Dia e de Apoio Domiciliário.
(Rosário Carvalho)
Diploma de Classificação
(ver ficha 75042, "Igreja da Misericórdia de Abrantes, pátio do Definitório, Casa do Despacho e claustro anexo, incluindo o património imóvel ntegrado" - fusão e ampliação das 3 classificações anteriores)
Decreto n.º 129/77, DR, I Série, n.º 226, de 29-09-1977 (ver Decreto)
Edital de 2-01-1976 da CM de Abrantes
Despacho de homologação de 18-03-1975 do Secretário de Estado da Cultura e Educação Permanente
Parecer favorável de 7-03-1975 da 4.ª Subsecção da 2.ª Secção da JNE
Proposta do delegado da JNE no concelho para a classificação como IIP