Nota Histórico-Artistica
No alto da colina de Santo António dos Olivais ergue-se a actual igreja de Santo António, com a sua escadaria e capelas da Paixão, que impõem a este espaço uma cenografia barroca, própria das igrejas de peregrinação setecentistas.
Todavia, a tradição religiosa deste local é bem anterior. Há notícia da existência de uma capela dedicada a Santo Antão, pelo menos no início século XIII. Em 1217-1218 foi aqui fundado um convento de franciscanos que, no entanto, optaram por se transferir para o convento de São Francisco da Ponte, em 1247. A capela, entretanto dedicada a Santo António, foi entregue ao cabido catedralício, responsável pela campanha de ampliação da ermida, ocorrida no século XV. O pórtico, que se observa actualmente, remonta a esta intervenção quatrocentista.
Durante o século XVI os franciscanos capuchos da Província da Piedade tornaram-se proprietários do templo, que mais tarde foi entregue à Província da Soledade, em função da divisão administrativa da Ordem, em 1673.
A igreja conheceu nova intervenção arquitectónica no período barroco, que lhe conferiu o aspecto actual. A escadaria, construída nesta época, é precedida por um pórtico. Este, é formado por três vãos de volta perfeita, e rematado por um nicho que alberga uma imagem de barro, representando Santo António. Acompanham a escadaria três capelas de cada lado, de planta quadrada e telhado piramidal, dedicadas à Paixão e Morte de Cristo - Oração no Jardim das Oliveiras, Verónica e Calvário, do lado esquerdo, e Paixão, Flagelação e Descida da Cruz, do lado oposto.
Acede-se à igreja através de um arco abatido, característico das igrejas franciscanas deste período, a que se sobrepõe a zona do coro, rasgada por uma janela central e dois nichos com as imagens de Santo António e São Francisco. Neste átrio, uma das portas dá para a última capela da escadaria, e na outra encontra-se o altar do Senhor dos Passos.
No interior, a igreja apresenta abóbada rebaixada, em tijolo. Os retábulos barrocos remontam ao primeiro terço do século XVIII, destacando-se o altar-mor pela sua pintura de Nossa Senhora da Conceição, executada por Pascoal Parente, em 1779. Um silhar de azulejos, da primeira metade do século XVIII, reveste as paredes da nave, ilustrando passos da Vida de Santo António. Ainda desta época são os azulejos da capela-mor, azuis e brancos, mas de composição vegetalista. Distribuídos aleatoriamente, de forma a completar diversas falhas, encontram-se outros exemplos cerâmicos, de aresta e fabrico sevilhano, do século XVI.
Por sua vez, o espaço da sacristia revela-se de grande interesse. O tecto, pintado com motivos vegetalistas de enrolamentos de acanto, e o silhar de azulejos de temática antonina, remontam à primeira metade do século XVIII. Já o arcaz e o espaldar, com molduras barrocas de talha dourada e pinturas ilustrativas da vida de Santo António, e as esculturas de barro ou relicários deverão corresponder ao período imediatamente posterior.
No terreiro a norte da igreja foi edificada um capela de reduzidas dimensões no século XIX, num local que a tradição diz ter sido a cela de Santo António. Trata-se de um projecto revivalista gótico, concebido por António Augusto Gonçalves, um dos restauradores da Sé de Coimbra.
Com a Extinção das Ordens Religiosas, o convento foi vendido, acabando por desaparecer vítima de um incêndio no ano de 1851. Do antigo complexo conventual, apenas subsistiu a igreja.
Uma última referência para o cruzeiro quinhentista, em forma de templete revestido, no interior, por azulejos historiados da mesma época que os da nave da igreja. A imagem de Cristo crucuficado é uma obra do escultor renascentista João de Ruão, executada no ano de 1536, e que se tornou um modelo muito utilizado pela "escola ruanesca" (SERRÃO, 2003, p. 148).
(Rosário Carvalho)