Nota Histórico-Artistica
Provavelmente construída durante a Idade Média, e ainda com uma campanha de obras no século XVI (centúria a que pertence a lápide funerária mais antiga no seu interior, datada de 1583 e que alberga a sepultura de António Cotrim de Melo), a actual igreja é um templo barroco de nave única e capela-mor rectangular, concluído em 1740. A concepção geral adoptada nessa campanha insere-se no modelo de templo paroquial patrocinado pela Ordem de Santiago em várias igrejas da região e do mesmo período, como São Lourenço de Alhos Vedros, Nossa Senhora da Oliveira de Canha ou São Brás de Samouco. A fachada (com as suas linhas severas, o corpo tripartido e a torre sineira) é mais majestosa que o interior, sugerindo uma divisão interna em três naves e não em nave única, como realmente acontece. No interior, as paredes são revestidas de azulejos azuis e brancos saídos das grandes oficinas de Lisboa, tal como o antigo retábulo-mor, em talha dourada barroca, sendo o tecto setecentista da nave composto por caixotões.
Infelizmente, esta uniformidade barroca foi quebrada por várias alterações verificadas nos séculos XIX e XX. O actual retábulo-mor, neoclássico, integra parte do anterior, designadamente o sacrário (em forma de medalhão e ostentando, ao centro, o cordeiro místico) e o trono do Santíssimo (com uma teoria de anjos). Dele faz parte, também, uma tela dedicada a São Jorge matando o dragão, das décadas de 20-30 do século XVIII e da autoria das oficinas de Lisboa, certamente inspirada em gravuras da época, onde o santo foi retratado em plena acção, cravando a sua lança na boca do dragão. O tecto da nave foi integralmente abobadado nos inícios do século XX, datando de 1904 a pintura central, alusiva a São Jorge e da autoria de Pereira Cão. Ainda do século XVIII são os retábulos laterais, que ladeiam o arco triunfal.
A capela baptismal, colocada do lado Norte da fachada principal, é um espaço quadrangular, cujas paredes são cobertas por azulejos de figura avulsa, sendo o tecto de caixotões, assim como o do átrio que antecede o guarda-vento da igreja, pintado com o brasão joanino. A sacristia situa-se do lado Sul da capela-mor e, para além do arcaz barroco original, conserva ainda o lavabo, igualmente da primeira metade do século XVIII.
Uma das principais atracções do templo é o programa azulejar da nave. Ele data de 1740, conforme inscrição em cartela, sobre a porta que dá acesso à torre sineira e é obra do Ciclo dos Grandes Mestres lisboetas. Os temas representados têm sido constantemente interpretados como representando São Jorge, mas uma análise mais atenta inviabiliza essa apreciação. A figura central do programa é uma santa mártir, até gora não identificada, num ciclo que, ao que tudo indica, será bastante erudito. Na capela-mor, as duas paredes laterais foram revestidas com painéis prefiguradores da Eucaristia, designadamente a Apanha do Maná e Abraão e Melquisedec.
Anexa à igreja, pelo lado Norte, existe uma pequena capela funerária manuelina, mandada edificar por Rui Cotrim de Castanheda, fidalgo da Casa de D. Manuel, capitão da segunda armada de Vasco da Gama à Índia, em 1502 e que aqui jaz em campa rasa, diante do altar. O actual aspecto exterior deve-se a um restauro executado em 1991, tendo-se, então, encerrado a galilé que antecedia a capela. O portal é tipicamente manuelino, de evidente modéstia e de perfil canopial. O interior é abobadado com uma solução de cruzaria de ogivas, cujo bocete ostenta o brasão do instituidor, e foi, na origem, enriquecido com obras de arte, entre as quais painéis de azulejos sevilhanos, uma imagem pétrea das Santas Madres, datada de finais do século XV ou inícios de XVI e roubada em 1982 e, eventualmente, um conjunto de cerâmica vidrada importada de Itália e devida aos célebres irmãos della Robia.
PAF