Nota Histórico-Artistica
A estrutura da Misericórdia do Alandroal, com duas igrejas paralelas (uma quinhentista e outra setecentista), deixa adivinhar os grandes períodos da sua existência, dos quais resultaram evidentes consequências ao nível arquitectónico e decorativo. Não se sabe ao certo a data da sua instituição, mas a existência de um livro de contas de 1511 permite supor que já existia neste ano (ESPANCA, 1978). Será, no entanto, necessária uma investigação mais aprofundada para se apurar a fundação desta Misericórdia, não mencionada em estudos mais recentes (SÁ, 2002, p. 22).
A primitiva igreja era da invocação do Espírito Santo e, embora tenha sido utilizada como sala do Consistório durante longo tempo, mantém a traça original. Situada a Leste, apresenta nave única, arco triunfal ogival e capela-mor rectangular, com cobertura em abóbada de nervuras, com fecho onde se representa a cruz da Ordem de Cristo e pinturas a fresco, já seiscentistas. Se a arquitectura mantém os traços manuelinos, que podem corroborar a maior antiguidade da igreja e da instituição da Misericórdia, os elementos decorativos que aqui encontramos são já do período barroco, possivelmente contemporâneos da grande intervenção que deu origem à igreja setecentista. Os panos murários exibem, também, pintura a fresco, com representações de São João Baptista no deserto, um santo Bispo e São Francisco recebendo os estigmas (ESPANCA, 1978).
O retábulo que hoje observamos é de alvenaria e remonta ao período barroco. A lápide no pavimento indica que ali se encontra sepultado D. Jorge de Melo (+ 1549), por alguns autores considerado o fundador da Misericórdia. A fachada desta capela foi integrada na igreja que se edificou posteriormente, constituindo a sua porta principal, de verga recta, a base da torre sineira.
Em relação à nova igreja são poucos os dados conhecidos. A sua arquitectura indica uma construção que pode ser balizada entre o final do século XVII e o início do seguinte, sendo que boa parte dos elementos decorativos, onde se inclui a cartela sobre o portal principal, são já do reinado de D. João V. A edificação de um outro templo, paralelo ao primitivo, poderá justificar-se por uma questão de espaço. A capela original não deveria apresentar ruína, uma vez que foi conservada e reutilizada.
A fachada principal, em empena, destaca-se pelo portal principal, coroado por frontão recortado em cujo tímpano se inscrevem as armas de D. João V, denunciando não apenas uma época construtiva mas, eventualmente, a participação real nas obras que então decorriam. No interior, a nave rectangular é coberta por abóbada de meio canhão; tem coro alto, dois altares, e o púlpito de mármore branco do século XVIII. Ganha especial relevância a tribuna dos mesários, de madeira entalhada (com elementos a anunciar o rocaille), assente sobre cachorros marmóreos. Esta tribuna pode, eventualmente, indiciar uma outra campanha de obras tardia, mais próxima ou a decorrer no reinado de D. José (ESPANCA, 1978).
Na capela-mor, o retábulo de talha dourada, estilo nacional, apresenta tribuna com um trono, a que se sobrepunha, por vezes, um painel representando a Visitação, executado por um pintor regional. Os panos murários destacam-se pelo revestimento azulejar azul e branco, característicos da primeira metade do século XVIII e que Santos Simões data de c. 1740 (1969, p. 396). Ilustram a Última Ceia e Cristo a lavar os pés aos Apóstolos.
Uma última referência para as restantes dependências da Misericórdia e antigo Hospital, cuja fachada se desenvolve no prolongamento do alçado principal da igreja, acompanhando o declive da rua. Pauta-se por vãos de verga recta e janelas de sacada no piso superior. Incluída na presente classificação, a fonte, situada em frente da entrada do antigo hospital, foi inaugurada em 1872. Veio substituir um antigo poço, e a fonte erguida em 1782. O seu espaldar, em mármore, é muito depurado, salientando-se o remate em frontão contracurvado. (RC)