Nota Histórico-Artistica
Fundada em 1534 pelos "homens bons" da vila, a irmandade da Misericórdia de Torres Novas só viria a construir o seu templo na segunda metade do século XVI. Nos primeiros anos de funcionamento, devido à falta de património e rendimento próprios, a irmandade pediu à Coroa a anexação dos bens da gafaria da vila, bem como de algumas confrarias paroquiais. No ano de 1538 D. Jaime de Lencastre, prior das quatro freguesias de Torres Novas, doava à irmandade a ermida dos Fiéis de Deus, que pertencia à igreja paroquial de São Pedro; foi neste local que a irmandade decidiu erigir a sua igreja. Em 1566 a igreja não estava ainda concluída, pois a primeira eleição da mesa da Misericórdia, feita nesse ano, foi realizada na igreja de Santa Maria. As obras iriam arrastar-se pelos primeiros anos do século XVII, embora a estrutura do templo estivesse concluída antes de 1592. Em 1618 era executado o retábulo de pedra da capela-mor, e em 1640, a Mesa pagava as tábuas dos altares colaterais, atribuídas ao pintor Miguel Figueira. No ano de 1644 era executado o entablamento da capela-mor e em 1668 o benfeitor Manuel Falardo da Maia patrocinava a edificação da tribuna em talha dourada. O revestimento azulejar do interior da igreja foi realizado em 1674, e quatro anos depois eram pintados os caixotões da abóbada da nave. O coro-alto só seria erigido em 1684.
O longo tempo de edificação da Misericórdia de Torres Novas originou um templo eclético, que conjuga elementos de diversas épocas, nomeadamente um portal manuelino, de acesso à Casa do Despacho, que deverá ter sido retirado da estrutura da ermida dos Fiéis de Deus. A fachada principal do templo apresenta um modelo maneirista, de linhas depuradas, com portal de moldura rectangular inserido em estrutura retabular, ao qual se acede por escadaria. A estrutura do portal divide-se em três registos, à semelhança dos retábulos pétreos. A porta é ladeada por duplas colunas compósitas, assentes em plintos decorados com cartelas, e encimadas por cornija decorada com relevos de grutescos e um esquema arquitectónico tripartido, definido por pilastras decoradas. O conjunto é rematado por um nicho em concha, decorado por uma Visitação e rematado por frontão triangular. O segundo registo da fachada possui três janelas de peito, que iluminam lateralmente a nave.
Interiormente, possui planta de nave única e cabeceira tripartida, de cércea mais baixa e capela-mor avançada em relação às laterais. A nave possui seis vãos, com as paredes totalmente revestidas de azulejos de tapete, e tecto de caixotões pintados. Ao fundo foi edificado o coro-alto assente sobre pilastras, com balaustrada de madeira. Do lado da Epístola foi colocado o cadeiral dos mesários da irmandade, destacando-se o lugar do provedor, encimado por brasão. O presbitério é avançado, com frontal revestido a azulejos de padrão. A cabeceira é decorada por estrutura arquitectónica de cantaria, com três arcadas de arco pleno separadas por pilastras dóricas e rematada por frontão triangular. As capelas colaterais, pouco profundas, possuem retábulos de talha dourada, a do Evangelho dedicada ao Senhor do Bom Despacho, a da Epístola dedicada ao Senhor dos Passos. O retábulo-mor, também de talha dourada, possui sacrário em forma de tabernáculo e imagem da Visitação. Sobre a sacristia foi edificada a Casa do Despacho, com tribuna para a nave, cerrada por portas envidraçadas.
As telas maneiristas que compunham os retábulos originais foram preservadas, destacando-se a Visitação do retábulo-mor; as representações de Cristo curando o paralítico e a Ressurreição de Lázaro foram colocadas nas paredes laterais da nave, enquadradas por molduras barrocas.
A igreja possui ainda, no vão lateral do presbitério, um presépio da escola de Machado de Castro, que pertencera à Quinta de São Gião e foi doado à Misericórdia de Torres Novas por João Caetano Pereira, seu segundo proprietário.
Catarina Oliveira
IPPAR/2004
Diploma de Classificação
Decreto n.º 1/86, DR, I Série, n.º 2, de 3-01-1986 (ver Decreto)
Edital de 5-06-1984 da CM de Torres Novas
Edital de 13-03-1984 da CM de Torres Novas
Despacho de homologação de 29-11-1979 do Secretário de Estado da Cultura
Parecer de 29-11-1979 da COISPCN a propor a classificação como IIP
Proposta de classificação de 6-11-1979 da DGPC
Número do Processo
Não disponível