Nota Histórico-Artistica
Imóvel
Implantado na Baixa de Lisboa, o antigo Convento de São Francisco da Cidade é um complexo edificado constituído pelos corpos do Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, integrado no espaço onde se erguia a antiga Igreja de São Francisco, e das alas conventuais, onde se localizam a Faculdade de Belas Artes de Lisboa e a Academia Nacional de Belas Artes, que se organizam em torno de dois claustros retangulares e três pátios, formando uma planta irregular.
Os volumes edificados foram transformados por obras sucessivas de adaptação às atuais funções culturais e educativas que o antigo cenóbio franciscano alberga.
O museu apresenta uma longa fachada, virada à R. Serpa Pinto, com muro vazado por óculos e dividida em três registos, com duas portas de arco rebaixado que ladeiam a entrada retangular, no piso térreo, e janelas retangulares nos superiores.
A fachada oposta, que abre para o Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, apresenta fachada ritmada pela abertura de janelas a espaços regulares, com porta de entrada edificada no corpo esquerdo, precedida por escadas.
A igreja, demolida ao longo do século XIX, localizava-se no extremo sul do complexo, virada ao Arsenal. As antigas alas conventuais, onde estão instaladas a faculdade e a academia, são rasgadas por janelas e dividem-se em três e quatro pisos, consoante o desnível do terreno. Destaca-se o claustro principal, com vestígios das arcadas primitivas, e uma cisterna de planta quadrada, ao centro coberta, por abóbada de berço. O claustro secundário é ajardinado.
No interior, o espaço correspondente à antiga portaria mantém o amplo vão de volta perfeita, ao passo que nos corredores subsiste a cobertura em abóbadas, quer de berço quer de aresta. As duas escadarias principais conservam lambril de azulejos rococós polícromos.
História
O Convento de São Francisco da Cidade foi fundado em 1217 por Frei Zacarias que, com autorização do rei D. Afonso II, implantou o cenóbio no chamado Monte Fragoso, local ermo de Lisboa situado numa escarpa sobre a praia de Cataquefarás, onde atualmente se localiza o Largo do Corpo Santo. O edifício foi o quarto complexo conventual dos Franciscanos erigido na capital, e da estrutura gótica nada subsiste para além de vestígios, como capitéis.
O convento, um dos maiores da cidade, foi objeto de diversas intervenções ao longo das centúrias seguintes, tendo sido reedificado entre 1517 e 1528, numa obra onde trabalhou, entre outros mestres, o arquiteto João de Castilho. À época, o complexo comportava, além da igreja e dos espaços de residência conventual, um hospital e um albergue.
No século XVII o cenóbio voltava a receber obras, datando de 1655 a Casa do Capítulo, traçada por João Nunes Tinoco, e de 1673 a abertura do Hospital da Ordem Terceira de São Francisco. Dessa centúria datará, também, a cisterna que hoje se encontra no pátio da faculdade.
Nos anos de 1708 e 1741 o convento sofreu dois grandes incêndios, e quando terminava a segunda reconstrução do espaço, Lisboa foi abalada pelo terramoto de 1755, que deixou o cenóbio franciscano, uma vez mais, num estado particularmente ruinoso. Embora se inicie de imediato a reedificação do espaço, o edifício não estava concluído quando da extinção das Ordens religiosas, em 1834.
A partir de 1836 o extinto convento passou a albergar a Biblioteca Nacional de Portugal, que aí funcionou até 1965, e a Academia de Belas-Artes; o espaço da Biblioteca seria ocupado, depois de 65, pela Faculdade de Belas Artes. Em 1839 o templo foi demolido, e as suas colunas integradas nos frontispícios do Teatro D. Maria II e da Escola Politécnica. No ano de 1862 instalou-se no espaço remanescente a Galeria Nacional de Pintura, que em 1911 deu origem ao Museu Nacional de Arte Contemporânea.
Atualmente, o edifício é partilhado pela Faculdade, pelo Museu, pela Academia e pela Polícia de Segurança Pública, que aí mantém armazéns.
Catarina Oliveira
DGPC, 2017