Nota Histórico-Artistica
A Quinta dos Olhos Bolidos (ou Belidos, palavra derivada do latim bellus, "belos"), imediatamente à saída da vila de Santiago do Cacém, é referenciada desde o início do século XVIII, pertencendo então a um João Estaço, muito provavelmente descendente do cavaleiro da Ordem de Santiago com o mesmo nome que esteve sepultado num túmulo quinhentista da Ermida de Nossa Senhora do Monte da localidade. Em 1728 a propriedade foi comprada pelo fidalgo João Falcão de Mendonça, também proprietário das vizinhas Quinta de São João e Quinta do Meio ou de São José. Logo em 1730 a Quinta dos Olhos Bolidos foi de novo vendida, desta vez a D. António Paes Godinho, Bispo de Nanquim, que mantinha residência em Santiago do Cacém. As terras passariam mais tarde para o sobrinho Frei Bernardo Falcão, genealogista e historiador local, filho do seu irmão e de uma sobrinha de João Falcão de Mendonça. Por esta via, a quinta voltou para as mãos desta família, sendo doada por Frei Bernardo Falcão ao seu primo, o 2.º morgado da Quinta de São João. Mantém-se até hoje na posse de descendentes seus, ainda que por ramos colaterais.
Apesar da área residencial da Quinta dos Olhos Bolidos não ter a grandiosidade de muitas das grandes quintas setecentistas, a propriedade destaca-se pela beleza da zona ajardinada. Segundo a tradição, D. António Paes Godinho teria introduzido nos jardins diversos espécimes exóticos trazidos do Oriente, ajudando a criar o ambiente paradisíaco adequado a uma quinta de recreio. Este carácter é de resto comum às grandes quintas de Santiago do Cacém, situadas às portas da vila onde residiam os seus abastados proprietários, com as suas casas apalaçadas, jardins, fontes, salas de fresco, vegetação exuberante e árvores seculares.
Na idealização destes locus amenus, autênticos paradigmas do jardim português, está presente a tradição árabe, visível na disposição dos terraços, na sábia utilização da água, nos jogos de luz e sombra e na multiplicidade de perfumes e cores que apelam aos sentidos. Para isto contribuiu em muito a abundância de água e o microclima muito próprio da região, cujos terrenos férteis foram louvados pelo próprio Frei Bernardo Falcão, referindo em carta enviada ao bispo de Beja a abundância de pomares com fruta "da terra" e outra exótica, como "bananas, tâmaras, pimenta, canas de assucar, erva-doce e alfazema", sem deixar de referir a muita água, e "toda própria", da Quinta de Olhos belidos.
Foi esta abundância de água, proveniente de diversas nascentes que ainda hoje alimentam o sistema hidráulico desta quinta e das quintas do Meio e de São João (outrora um todo fundiário), que permitiu a criação de um cenário paisagístico ritmado por notáveis fontes, lagos, repuxos e tanques, e completado por uma queda de água artificial. Junto desta levanta-se a casa de fresco denominada Casa da Cascata, construída sobre uma gruta também artificial, elemento profundamente inscrito no gosto setecentista, desenhada, à semelhança de outros testemunhos similares, em estilo rocaille, decorada com conchas, seixos rolados e chinoiseries (pratos de porcelana chinesa, possivelmente trazidos da China pelo proprietário).
O edifício principal da quinta é muito singelo; foi erguido, como a maior parte dos jardins, por D. António Paes Godinho, entre 1738 e 1742, e limita-se a uma casa térrea, com uma torrinha de dois pisos e planta quadrangular na fachada anexa à capela. Apesar do contraste com a riqueza dos jardins, a rusticidade da zona habitacional adequa-se bem a uma propriedade que, além de local de veraneio, permaneceu sempre como quinta de produção agrícola, como era habitual no nosso país. Na Quinta dos Olhos Bolidos fundem-se assim distintas zonas funcionais, incluindo hortas e pomares, uma alameda de laranjeiras, o jardim formal em estilo francês, os terraços articulados em torno da casa principal, e ainda uma mata e um olival.
Sílvia Leite/DIDA - IGESPAR, IP/2012