Nota Histórico-Artistica
A ocupação populacional do perímetro que forma actualmente a vila de Óbidos regista-se desde tempos pré-históricos, quando se formou junto à lagoa o primeiro povoado. A povoação foi sucessivamente habitada por tropas romanas, transferindo-se depois para os Visigodos, que são apontados como os fundadores dos primeiros templos de Óbidos, um no centro da vila, outro junto à lagoa (PEREIRA,J. F.,1988,p. 35). Quando os Árabes ocuparam a vila, utilizaram o templo cristão situado dentro das muralhas para a instalação da sua mesquita, destinando o espaço fronteiro a esta - um largo mais pequeno que o actual - para trocas comerciais.
Em 1148 Óbidos era reconquistada pelas tropas de D. Afonso Henriques, e o monarca terá restaurado o culto cristão na mesquita. A igreja, dedicado então a Santa Maria, iria tornar-se o principal templo da povoação. No entanto, nada resta do edifício medieval, uma vez que a estrutura foi totalmente renovada por ordem da rainha D. Leonor no início do século XVI.
Na realidade, a vila de Óbidos pertencia desde 1210 à Casa das Rainhas, pelo que foi muito beneficiada em termos de mecenato artístico e religioso pela Coroa nos seiscentos anos seguintes. As principais intervenções custeadas pela viúva de D. João II foram o portal principal e a torre edificada do lado direito. Embora não se conheça o modelo deste portal, que foi substituído cerca de 1571, este deveria ser "(...) com toda a probabilidade (...) uma obra manuelina." (Idem,ibidem,p. 37).
No entanto, a estrutura do edifício foi-se deteriorando ao longo do século XVI, e em Março de 1571 o templo era fechado ao culto por apresentar sinais de ruína eminente. Em Agosto desse mesmo ano, a rainha D. Catarina ordenou ao Prior da Colegiada de Santa Maria, D. Rodrigo Sanches, que desse início à reconstrução do templo. O projecto deste "novo" templo é atribuído ao risco do arquitecto António Rodrigues (FLOR,P.,2002).
Assiste-se assim a uma reforma radical do programa estético do templo, verificando-se que esta campanha de obras conseguiu, "(...) partindo de um espaço interior pré-determinado (...) conferir à igreja matriz de Óbidos uma sensação de leveza e de unidade pouco frequentes em igrejas que sofreram beneficiações tão profundas (...)" (CÂMARA,T.B.,1990, p. 83).
A tipologia mendicante da planta manteve-se, apresentando um espaço interior de gosto gótico dividido em três naves sem transepto, cobertas por tecto de madeira, sendo a central mais elevada. No exterior o portal manuelino foi substituído por um magnífico portal maneirista de estrutura retabular, inspirado nos modelos de Sebastiano Serlio.
O espaço interior do templo, que como foi já referido manteve a tipologia mendicante, foi totalmente reformulado em termos do programa decorativo, que deriva de campanhas de obras executadas em épocas distintas. A cabeceira do templo, tal como a sacristia, foram reformadas em 1571, numa obra que se prolongou até 1579, quando foram edificados o novo retábulo-mor, dedicado à Assunção da Virgem, e o respectivo sacrário (Idem,ibidem,p.84), cuja estrutura segue o modelo do retábulo de Nossa Senhora da Luz de Carnide.
Somente em 1676 se iniciou a execução do programa decorativo deste espaço, que compreendeu a execução do revestimento azulejar das naves, da sacristia e da abside, a pintura das abóbadas e um novo retábulo para o altar-mor. Esta campanha de obras iria prolongar-se pelo século XVIII.
Das obras decorativas destacam-se ainda o tríptico de São Brás, executado por Diogo Teixeira cerca de 1590, e actualmente depositado no Museu Municipal de Óbidos, e o retábulo do altar de Santa Catarina, pintado por Josefa de Óbidos em 1661.
Catarina Oliveira
GIF/IPPAR/2006