Nota Histórico-Artistica
As obras de construção do Paço Real de Évora terão começado em torno de 1468, por iniciativa de D. Afonso V (PINHO LEAL, 1890), ocupando parte das dependências do grande Convento de São Francisco, ao qual foi progressivamente ganhando território, contra a vontade dos frades. O novo paço começa por tomar a Sala dos Estudos do convento, onde foi instalada a primeira Livraria do reino, destinada a uso da Corte.
Foi com D. João II que o andamento do edifício tomou maior impulso. O casamento de D. Isabel de Castela, mais tarde mulher de D. Manuel e rainha de Portugal, com o príncipe D. Afonso, então herdeiro da coroa, levou à construção de um palácio provisório, em madeira, onde se celebraram as bodas. Esta construção, provavelmente abandonada após a prematura morte do príncipe, foi desmantelada já no reinado de D. Manuel, dando lugar a um jardim e ao melhoramento das hortas e laranjal já existentes. As obras do palácio foram retomadas pelo monarca, datando de c. 1510 a chamada Galeria das Damas (ESPANCA, 1993), de traço atribuível a Martim Lourenço, mestre das obras vizinhas do Convento e Igreja de São Francisco, de encomenda régia, e talvez igualmente a Diogo de Arruda (nomeado para o cargo de arquitecto dos paços régios em 1525). A direcção dos trabalhos pertenceu a Álvaro Velho, escudeiro real e vedor das obras do reino.
A família real esteve alojada no Paço de Évora durante largas temporadas, ocasiões para realização de Cortes, nascimentos de príncipes e princesas, e actividades recreativas e culturais como a representação de autos, tendo sido aí apresentadas à corte seis peças de Gil Vicente. D. João III continuou as obras e acrescentou o palácio, terminando ainda os arranjos exteriores do laranjal, antigos hortos conventuais e ajardinamentos. O palácio continuou a receber monarcas e corte até ao reinado de Filipe II.
O declínio do conjunto teve início a partir de 1616, quando este rei cedeu aos frades franciscanos do convento uma série de dependências e terrenos do paço, adaptadas a dormitórios ou até abandonadas. À extinção das ordens religiosas, em 1834, seguiu-se a instalação em parte do edifício de algumas instâncias oficiais eborenses, a destruição de uma larga zona para instalação do Mercado Municipal, e por fim todo o conjunto foi vendido e destruído. Do núcleo quinhentista resta apenas a chamada Galeria das Damas, restaurada pela Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais a partir da década de 40.
Este elegante pavilhão é composto por dois corpos alongados, interrompidos ao centro por um torreão central avançado com três pisos. O corpo norte conserva o alpendre manuelino, de abóbada de ogivas e quatro tramos de arcos de volta perfeita, aberto para norte, este e oeste, e reforçado por botaréus chanfrados. Por cima da alpendrada, a galeria com arcadas envidraçadas é resultado das profundas alterações que o edifício sofreu a partir do século XIX, não conservando nenhum elemento quinhentista. O corpo sul, de menor comprimento, possui ainda a loggia com cinco arcos em ferradura, em estilo mudéjar, rematado por um terraço para onde abrem portas geminadas manuelinas, semelhantes às janelas que percorrem todo o piso superior. Ao centro, o torreão é rasgado por um varandim com arcos mainelados, aberto no primeiro andar, acessível através de uma larga portada manuelina, de ornamentação vegetalista. O terceiro piso é iluminado por preciosas janelas renascentistas, mais tardias. O conjunto é muito característico do estilo híbrido alentejano, com fortes influências mouriscas peninsulares, a par da decoração de base naturalista típica do tardo-gótico e estilo manuelino, com acrescentos de elegantes detalhes mais tardios, ao gosto romano. SML