Nota Histórico-Artistica
A presença de D. João V nas Caldas da Rainha, entre 1742 e 1748, juntamente com a corte que o acompanhava, trouxe consigo novos e importantes melhoramentos para a vila, entre os quais se integra a edificação da capela de São Jacinto, com o seu revestimento cerâmico, executado por artistas da capital. Pouco se conhece da evolução das obras da capela, que devem ter ocupado a primeira metade do século XVIII, estando terminadas em 1745, data pintada na cruz de azulejos sobre a porta da sacristia, que ajuda a datar não apenas o edifício, mas também a campanha azulejar do seu interior.
De planta longitudinal, que articula nave única e capela-mor, a capela de São Jacinto caracteriza-se pela depuração dos seus volumes e linhas exteriores, própria da arquitectura chã. A fachada, com pilastras nos cunhais e remate em frontão triangular, com óculo no tímpano, é aberta por um portal de linhas rectas, sem qualquer elemento decorativo. No interior, o brilho e o efeito cenográfico do revestimento azulejar, só não contrastam mais vivamente com o exterior, porque a restante arquitectura pauta-se, também ela, por uma grande linearidade.
A nave, coberta por tecto de madeira seccionado em três planos, é percorrida por uma cimalha, que acompanha, também, o arco triunfal, de volta perfeita, integrando os vãos de linhas rectas, e o púlpito com guarda de madeira. Os azulejos organizam-se num silhar com cartelas divididas por elementos arquitectónicos, que se prolongam nos painéis superiores, separando as diversas cenas da vida de São Jacinto, a quem a capela foi dedicada.
Na capela-mor, as azulejos revestem, também, a parede fundeira, apenas parcialmente ocupada pelo retábulo, numa solução muito pouco usual na tradição azulejar portuguesa (SIMÕES, 1979, p. 164). Na verdade, o retábulo, mais próximo já do neoclassicismo, foi integrado pelo revestimento cerâmico, que desenha uma moldura de volutas alongadas à sua volta, e abre uma espécie de dossel, cujos panejamentos são afastados por querubins. É possível que o retábulo original fosse outro, ainda de talha barroca, mas a eventual integração de um novo exemplar soube respeitar o enquadramento cerâmico.
Curiosamente, na próxima capela de São Sebastião, a solução encontrada para a capela-mor é muito semelhante, ta como os próprios painéis, o que indicia um pintor comum. José Meco (1985, p. 30) atribuiu o conjunto de São Sebastião a Bartolomeu Antunes, datando-o de 1743-45, o que coincide com as datas disponíveis para a capela de São Jacinto. Todavia, estudos recentes sobre Antunes vieram revelar que este não era pintor, e que a sua actividade "(...) deve ser entendida como a de um experiente gestor, sobre o qual recaía a responsabilidade geral da empreitada", articulando a encomenda com os pintores com quem habitualmente trabalhava (MANGUCCI, 2003, p. 140). Tal não invalida o agrupamento de um conjunto de painéis semelhantes, muito embora fique em aberto, até novos dados, o nome do pintor que os executou, sabendo-se, desde já, que se encontrava ligado a Bartolomeu Antunes.
(Rosário Carvalho)